Reportagem revelou mensagens de ex-sócio sobre despesas do senador bancadas por amigos, suposta intermediação junto a ministro do STF e encontros com garotas de programa
Um Rolex de R$ 305 mil comprado por um advogado, relatos de orgias com garotas de programa e mensagens sobre uma suposta intermediação junto a Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), expõem os bastidores de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Publicada nesta terça-feira, 29, reportagem do PlatôBR, reúne documentos, áudios e conversas guardados por um antigo amigo e sócio do senador e candidato à Presidência.
O material foi reunido por Alexandre Ferreira Dias Santini, que dividiu com Flávio uma franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A ruptura entre os dois desencadeou cobranças financeiras e ameaças de exposição. As revelações acrescentam questionamentos sobre as relações do senador, que, em outra frente, é investigado no STF por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso dos recursos de Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse.
Um dos documentos apresentados pela reportagem é a nota fiscal de um Rolex Submariner Date em ouro branco, comprado em Brasília em 10 de fevereiro de 2022. O relógio custou R$ 305 mil e foi adquirido em nome do advogado Alan Belaciano. Segundo o PlatôBR, mensagens preservadas por Santini indicam que o destinatário era Flávio Bolsonaro.
Belaciano também pagou mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia para a casa que o senador havia comprado por R$ 5,9 milhões em uma das áreas mais caras da capital federal. Quando essas notas vieram a público, Flávio afirmou que um amigo havia feito a compra como “empréstimo pessoal”, que estaria sendo quitado.
A lista de despesas atribuídas aos amigos vai além. Conforme a reportagem, mensagens mostram que reparos na residência eram providenciados e custeados pelo grupo. Santini também ficou responsável pela compra de uma televisão de 75 polegadas e chegou a pagar mensalidades da academia frequentada pelo senador e pela esposa.
O contexto desses pagamentos é um dos pontos centrais da apuração. Segundo o PlatôBR, Belaciano atuava em uma casa no Lago Sul frequentada por interessados em resolver pendências na administração federal. Flávio Bolsonaro visitava o endereço, e a proximidade com o filho do então presidente facilitava o acesso do grupo a integrantes do governo.
Sobre as cobranças de Santini, o senador havia declarado: “Ele tem mandado uns recados esquisitos para mim. Já me pediu dinheiro e eu não dei. Não quero dar linha para maluco. É um ex-sócio e ex-amigo”. Posteriormente, classificou as acusações como “infundadas”.
Encontros secretos e crise familiar
A reportagem também relata que Santini organizava encontros com garotas de programa dos quais Flávio participaria. O ex-sócio guardou mensagens e fotografias e, após o rompimento, apresentou parte desse material a Fernanda Bolsonaro, mulher do senador.
Em conversas com uma agenciadora, Santini combinava os encontros e se referia a Flávio como “meu filho”, segundo a identificação feita pelo PlatôBR. Um dos locais citados era o hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, onde o grupo teria utilizado um apartamento com diária de R$ 3 mil.
Nas mensagens reproduzidas, o ex-sócio demonstrava preocupação com a exposição durante a campanha: “Precisa ser tudo sigiloso”.
De acordo com a reportagem, os encontros eram bancados com recursos que circulavam entre os antigos sócios desde o período da loja de chocolates. O estabelecimento foi investigado pelo Ministério Público do Rio sob suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro das rachadinhas. A apuração foi posteriormente arquivada por decisão judicial.
Após Santini procurar Fernanda, Flávio enviou uma mensagem ao antigo amigo pedindo que ele se afastasse de sua mulher. No texto, o senador reconheceu erros pessoais, sem detalhar a quais episódios se referia.
“Me arrependi, de verdade, de muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha família”, escreveu. Em outro trecho, determinou: “Vá embora de Brasília, vai viver sua vida, vá ser feliz longe da gente”.
A crise familiar não encerrou a disputa financeira. Segundo o PlatôBR, Fernanda tentou intermediar uma conversa, e o escritório do advogado Willer Tomaz foi acionado para negociar. Em setembro de 2023, Santini enviou uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão por pendências relacionadas à sociedade. No documento, afirmou que Flávio havia investido R$ 200 mil em dinheiro vivo na abertura do negócio.
A mensagem para Kassio
O episódio envolvendo o Supremo surgiu no fim de 2023, após sucessivas tentativas frustradas de acordo. Santini escreveu a Flávio Bolsonaro, afirmando saber de uma intermediação feita pelo senador junto a Kassio Nunes Marques, indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro.
Segundo o relato publicado, o interesse seria de um cliente de Alan Belaciano, o mesmo advogado que comprou o Rolex. A articulação teria incluído a marcação de um jantar com participação do chefe de gabinete do ministro.
“Você falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso”, escreveu Santini. Na sequência, acrescentou: “Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado”.
Naquela mesma tarde, Flávio respondeu com um convite para conversar: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok”.
A reportagem não identifica o cliente nem o processo mencionado. A mensagem registra uma acusação do ex-sócio, mas, isoladamente, não comprova que a intermediação tenha ocorrido ou que tenha produzido alguma decisão judicial.
Também não são conhecidos os termos do entendimento entre os antigos sócios. Segundo o PlatôBR, depois de marcar a conversa, Santini avisou aos interlocutores com quem havia compartilhado os registros que a disputa terminara: “Assunto está encerrado”.
O ex-sócio voltou a apoiar publicamente o presidenciável. A reportagem registra que seu perfil nas redes sociais passou a exibir a declaração: “Sou e sempre serei FLAVIO BOLSONARO”.
Da Rede PT de Comunicação










