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‘Quando uma mulher é ameaçada para sair da política, não é só a voz dela que está em risco’, diz Jack Rocha

Deputada federal e candidata à reeleição sofreu dois ataques em menos de 24 horas e cobra aplicação da lei que criminaliza a violência política de gênero

Em menos de 24h, a campanha da deputada federal e canditada à reeleição Jack Rocha (PT-ES) sofreu dois ataques violentos. Em Cachoeiro de Itapemirim, um artefato explosivo foi lançado durante uma atividade de rua, atingindo duas trabalhadoras da equipe, que sofreram ferimentos leves. Em Vila Velha, materiais de campanha foram retirados e destruídos em meio a manifestações de ódio, racismo e misoginia. Diante dos ataques, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, divulgou nota manifestando solidariedade à deputada e às trabalhadoras atingidas e cobrando a apuração dos fatos e a identificação dos responsáveis. “A violência e a intimidação não podem ser toleradas no processo eleitoral”, afirmou.

A primeira-dama Janja Lula da Silva publicou também manifestou apoio à deputada Jack Rocha em suas redes sociais. Ela condenou os ataques, classificando a ostensiva contra as mulheres na política como covarde. “Nehuma mulher deve ter medo de fazer política”, afirmou.

Para Jack, os episódios não podem ser tratados como fatos isolados ou como parte natural da disputa eleitoral. Em entrevista à Rede PT de Comunicação, a parlamentar, que é a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo Espírito Santo, afirma que a violência política de gênero busca intimidar e afastar mulheres dos espaços de decisão.

“Quando uma mulher é ameaçada para sair da política, não é só a voz dela que está sendo colocada em risco. É a voz de todas as mulheres que ainda não chegaram ao seu espaço de protagonismo, seja na política ou em qualquer lugar”, afirma a parlamentar, que também é coordenadora da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados.

Ela também fala sobre as providências tomadas após os ataques, defende a aplicação da legislação aprovada em 2021 e chama a atenção para o significado político da presença de mulheres na disputa eleitoral. Durante a entrevista, Jack analiza episódios de violência política contra mulheres em diferentes estados, denunciando que são ações coordenadas.

A primeira-dama Janja Lula da Silva publicou nota de apoio à deputada Jack Rocha em suas redes sociais. Ela condenou os ataques, classificando a ostensiva contra as mulheres na política como covarde. “Nehuma mulher deve ter medo de fazer política”, afirmou.

Rede PT de Comunicação: Deputada, quais medidas vocês estão sendo tomadas diante dos episódios de violência?

Jack Rocha: É importante identificar qual tipo de violência foi praticado e, a partir disso, tomar as providências necessárias. No momento, nossa campanha orientou as duas pessoas atingidas a fazer o boletim de ocorrência e o exame de corpo de delito. O IML não estava funcionando naquele momento, então elas retornaram nesta segunda-feira para dar continuidade aos procedimentos.

Mas o ataque não era contra duas pessoas individualmente. Era um bandeiraço de Jaque e Lula, no município de Cachoeiro de Itapemirim, em que uma pessoa, na direção dos manifestantes, lançou um tipo de explosivo, um rojão, que atingiu uma pessoa próxima ao rosto e outra na região das pernas.

O fato é que a violência política não é apenas uma agressão contra uma mulher que está na política. Ela é sempre uma tentativa de dizer que aquele espaço não nos pertence, que as ruas não pertencem às mulheres e que a democracia também não nos pertence.

Quando essa violência vem acompanhada de racismo, xingamentos e misoginia, ela não atinge apenas uma candidata ou um candidato. Ela atinge tudo aquilo que aquela pessoa representa. Por isso, também vamos fazer uma representação ao Ministério Público Federal, denunciando o caso como violência política de gênero. Não foi só o caso de Cachoeiro. Menos de 24 horas antes, em Vila Velha, tivemos um adesivo arrancado. Uma pessoa filmou, gravou e teve a coragem de colocar nas redes sociais como se aquele ato não fosse também um crime eleitoral.

Quando naturalizamos esse tipo de situação, os pequenos atos vão se acumulando e, sobretudo, criando um clima de intimidação na campanha. A democracia é o nosso principal instrumento de luta contra as desigualdades. Não existe democracia sem a participação das mulheres.

Temos acompanhado uma série de ataques contra candidatas do campo progressista em diferentes estados. Você considera que existe uma ação coordenada contra essas candidaturas?

JR: Não tenho dúvida de que isso é algo contra as candidaturas, principalmente do campo progressista. Quando atingimos uma mulher na política, estamos atingindo todas. Mas, obviamente, as mulheres do campo progressista, do campo da esquerda, sempre serão as maiores atingidas.

Nós não podemos nos esquecer, por exemplo, de que Marielle Franco foi uma vereadora assassinada. Foi um dos maiores crimes políticos que tivemos. Margarida Alves, sindicalista, também foi assassinada. Tivemos tantas outras mulheres de luta que nos antecederam e passaram por todo um caminho antes de chegarmos até aqui.

Por isso, naturalizar os pequenos feitos pode gerar outras gravidades no futuro. A partir do momento em que, em 2021, aprovamos a lei de violência política de gênero, essa lei não pode ficar no papel.

O que precisa acontecer, então, para que essa legislação seja efetivamente aplicada?

JR: Ela precisa ser implementada. Os órgãos competentes, em nível estadual, as forças de segurança e o Poder Judiciário precisam funcionar no cumprimento dessa lei, que é a lei de violência política.

E nós estamos fazendo com que essa legislação não fique esquecida. Falando agora institucionalmente, não apenas como uma deputada candidata à reeleição, mas também pela Secretaria da Mulher da Câmara, temos acionado diversos mecanismos em nível nacional.

Foi o caso do Rio Grande do Norte, de Santa Catarina e de Minas Gerais. Em todos eles, fizemos ações para colocar esses casos no Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Violência Política de Gênero, denunciando à Procuradoria-Geral Eleitoral e solicitando providências do Tribunal Superior Eleitoral. Mas também precisamos de providências nos níveis locais.

As pessoas que estão nos territórios precisam saber o que é violência eleitoral, o que é violência política de gênero, o que estão fazendo quando destroem os materiais das candidatas mulheres e, sobretudo, quando ataques que começam nas redes sociais se tornam ataques físicos.

Isso não é manifestação política. Isso é crime. E o crime precisa ser punido, o crime precisa ser investigado.

Acho que nossa maior distinção é que, com o tempo, passamos a reconhecer essas situações. Antes, muitas vezes, não classificávamos o que era um crime de violência política. Hoje sabemos que isso é violência política.

Você é a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo Espírito Santo. O que significa ocupar esse espaço diante desse cenário?

Jack Rocha: Para mim, que sou a primeira mulher negra a ser eleita deputada federal, que venho do interior e chego ao Congresso Nacional pelo voto popular, eu sei que minha presença também carrega a presença de outras mulheres historicamente afastadas desses espaços.

É por isso que agradeço à direção do PT, ao Solidariedade, ao presidente Edinho e, em nome dele, a toda a nossa direção, e à Secretaria de Mulheres, que tem acompanhado esses casos. Pode ter certeza de que, dependendo da gente, nenhuma mulher vai ficar para trás nesse processo de combate à violência política de gênero.

Que recado você gostaria de deixar para as mulheres, sobre a importância da participação delas nas eleições?

JR: Não existe democracia sem a participação das mulheres. Nós temos que, juntas, enfrentar esse processo que tenta nos excluir, seja das ruas, seja das redes sociais. Eu gostaria de fazer uma verdadeira conclamação a todas as mulheres que nos ouvem neste momento: todas as mulheres do PT, todas as mulheres do campo progressista e todas as mulheres do campo democrático da política. Quando uma mulher é ameaçada para sair da política, não é só a voz dela que está sendo colocada em risco. É a voz de todas as mulheres que ainda não chegaram ao seu espaço de protagonismo, seja na política ou em qualquer lugar. Por isso, o lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive nos representando nas assembleias legislativas, na Câmara Federal, no Senado Federal, na Presidência da República, nos governos estaduais, em todos os lugares. Sabemos que enfrentar a violência política é também enfrentar um sistema estrutural, mas nenhuma mulher caminha sozinha nesse processo. Somos mais de 52% da população e o voto das mulheres é quem decide os caminhos da democracia.

Você também mencionou a defesa do voto feminino. Por que essa questão é tão importante neste momento?

JR: Pela bancada feminina do PT, assinei uma representação na Procuradoria-Geral da República contra falas que atacavam o voto feminino, dizendo que mulheres votam mal. A defesa do voto feminino é fundamental. Nosso voto foi conquistado apenas 94 anos atrás. Essa tentativa de violência política de gênero também busca nos afastar de um direito pelo qual lutamos arduamente para conquistar. O voto das mulheres é o voto que precisamos defender nessas eleições como expressão democrática da participação de toda a sociedade. E isso nós vamos continuar defendendo até o final.

Da Rede PT de Comunicação

 

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