No calor do pós-eleição, ainda na ressaca e com a cabeça doendo, vamos a alguns palpites.
O resultado foi muito bom para a extrema direita, representada pelo bolsonarismo, e para a direita tradicional — aquela que se diz civilizada, que “respeita” as instituições e que come de garfo e faca. Explico mais adiante.
O avanço da direita no Congresso
No Senado, o PL saltou de 15 para 28 senadores, mais de um terço da Casa. Somada às bancadas do Novo, União Brasil e Republicanos — partidos que, em boa medida, funcionam como satélites do bolsonarismo —, essa direita chega a uma bancada de 42 parlamentares, uma maioria no Senado.
Na Câmara, também houve um avanço importante da extrema direita, talvez um pouco menor do que no Senado, mas ainda assim significativo. Como exemplo, o PL passou de 98 para 121 deputados, um crescimento de aproximadamente 23%.
Aqui cabe uma observação.
Sim, os tempos são outros e a forma de fazer campanha mudou radicalmente. Além das suspeitas envolvendo a Cambridge Analytica — empresa especializada em direcionamento de mensagens e estratégias eleitorais por meio da análise de dados —, há números alcançados por alguns deputados e senadores que são, no mínimo, impressionantes.
Por melhor que seja um candidato do ponto de vista eleitoral, é difícil imaginar que alguém consiga ultrapassar 27% dos votos em uma eleição proporcional sem uma forte presença nas redes sociais e sem o uso intensivo dos mecanismos de distribuição de conteúdo das grandes plataformas.
Daí surge uma questão que merece ser investigada: até que ponto os algoritmos das big techs interferiram no resultado dessa eleição?
Parece haver razões suficientes para questionar se a atuação dessas empresas — especialmente por meio dos algoritmos que determinam o que cada eleitor vê, com que frequência e em qual contexto — teve influência relevante no processo eleitoral.
E isso não é um detalhe. É uma questão que merece ser debatida com seriedade.
Segundo tempo: o jogo da volta já começou
Agora vamos ao segundo tempo — ou, se preferirem, ao jogo da volta, já de olho em 2030.
A direita formada por setores da grande indústria, por uma parcela mais tradicional do agronegócio e pelo sistema financeiro não quer Lula — por uma questão de classe e de projeto político —, mas também não necessariamente quer o bolsonarismo.
O bolsonarismo é útil para essa direita, mas também pode ser um problema. É instável, pouco previsível e, muitas vezes, não trabalha com a lógica tradicional de alianças políticas. Na lógica bolsonarista, quem está ao lado hoje pode se tornar adversário amanhã. Em vez de aliados o bolsonarismo tem reféns. E aí está o dilema dessa direita tradicional.
Ela tem, basicamente, duas alternativas. A primeira é mais um período de quatro anos com Lula. Um governo que eles já conhecem, sabem como funciona e conseguem, em grande medida, prever. Fora uma coisa aqui, outra acolá — como uma eventual redução da jornada de trabalho para uma escala 5×2 —, não parece haver, nesse cenário, mudanças capazes de fazê-los “perder os anéis”, muito menos a mão.
A segunda alternativa é entregar o comando geral da nação ao bolsonarismo, com uma forte bancada no Congresso e todas as consequências que isso pode produzir — consequências que, digamos assim, não são exatamente previsíveis.
Tendo a achar que, para eles — e, obviamente, para nós —, a primeira alternativa, com Lula, é melhor. Até porque Lula saiu dessa eleição relativamente avariado. Obteve menos votos do que Flávio Bolsonaro e, nesse primeiro round, perdeu por pontos. Poucos, é verdade, mas perdeu.
Diante dessas duas alternativas — Lula ou bolsonarismo —, a direita tradicional e o establishment, esse grupo que concentra poder e influência nas instituições tradicionais, provavelmente não vê a hora de chegar 2030 para “zerar” o jogo.
Lula não estará mais no páreo e será que esse establishment vai querer um miliciano no poder candidato à reeleição? Quem quer um Tarciso em 2030 não pode desejar um Flávio em 2026.
Edilmo Lima é empresário, militante petista e ex-dirigente sindical dos Quimicos do ABC










