Quando eu era criança, nos anos 80, a Copa do Mundo tinha cheiro de terra molhada e alma de quintal. O jogador não era um ativo financeiro; era um herói de carne e osso que suava a camisa não porque o contrato pedia, mas porque o peito ardia em amor pelo país. A gente não sabia o valor de mercado de ninguém – sabíamos o peso do bracelete de capitão e a força de um grito de gol. Hoje, ao ligar a TV, sinto que o espetáculo virou balanço patrimonial. Os jogadores não são chamados pelo nome ou apelido; são apresentados pelo preço que valem em euros. Os patrocinadores não patrocinam mais o futebol; eles são o futebol.
A sede escolhida para 2026 escancara a geopolítica do gramado. Não se escolheu um país apaixonado por bola; escolheu-se o “dono do mundo”, o senhor do dólar. E eu, confesso, sinto uma falta imensa daquela muralha vermelha da União Soviética e da elegância defensiva da Azzurra, da grande Itália. Eram escolas, eram estilos, eram identidades. Hoje, o futebol globalizado pasteurizou tudo. Até a raça virou estatística.
O que mais me dói, porém, é a perda da autoridade e da poesia. O juiz, que antes era a lei viva dentro das quatro linhas, hoje virou um subordinado da tecnologia. Cheio de câmeras coladas ao corpo, ele não apita mais com instinto; ele consulta a tela. O impedimento, outrora decidido no fio do bigode do bandeirinha, virou um desenho geométrico em 3D. É a cirurgia a frio num esporte que era pura febre. E a imprensa, refém dos holofotes, assiste a tudo isso calada. Mal se importou quando a mãe de um jogador não conseguiu o visto para entrar no país-sede. O drama humano foi engolido pelo silêncio cúmplice. Afinal, isso não dá audiência e nem agrada aos anunciantes.
Mas o absurdo maior, para mim, está no contraste entre o luxo do espetáculo e a luta do nosso dia a dia. Lá fora, a bola rola num mar de dinheiro infinito. Aqui dentro, o nosso povo batalha bravamente para reduzir a jornada de trabalho, para conquistar um pouco mais de descanso e dignidade. Enquanto isso, o nosso Senador – que outrora foi jogador – segue lá, no tapete vermelho, engordando seu gordo salário. Um salário pago por nós, com o suor do trabalho que ele mesmo parece não respeitar mais.
Quer saber? Está chato demais. A grana fala tão alto que abafou o grito de torcida. O amor virou contrato; a nação virou mercado; o juiz virou robô; e o craque virou produto.
Não tenho mais ânimo para assistir ao show de horrores do capitalismo travestido de esporte. Vou desligar a televisão, apagar a luz e dormir. Porque, no fundo, a única Copa que ainda me emociona é a que vive na memória – aquela em que a bola não tinha chip, o juiz errava conosco e a gente acreditava que, sim, o futebol ainda era da gente.
Boa noite, mundo. E que o apito final da minha alma soe antes do próximo comercial.
Gerson Carlos Pereira é integrante do Sindicato dos Bancários de Jundiaí e dirigente da CUT – Jundiaí.










