As impressões de um velho militante, Ismael Paulo, da coordenação da campanha de Emidio de Souza
É importante fazer uma ressalva: materiais como santinhos e pequenas “colinhas” continuam tendo seu papel em uma campanha eleitoral, especialmente para quem precisa anotar ou consultar o número de um candidato no momento da votação. A ideia, portanto, não é deixar de utilizá-los, mas repensar a quantidade e a forma de distribuição. Em vez de entregar vários panfletos para uma mesma pessoa ou espalhar materiais pelas ruas, a proposta é trabalhar com o necessário: um material por pessoa, quando ele for de fato útil, e uma comunicação que principalmente valorize a conversa, a presença e o contato direto com a população.
A cidade também fala
Toda eleição transforma, ainda que temporariamente, a paisagem das cidades. Bandeiras, cartazes, adesivos e materiais gráficos passam a disputar espaço com calçadas, fachadas, praças e o caminho cotidiano de quem trabalha, estuda ou simplesmente circula.
Menos ocupação, mais cuidado
É nesse debate que aparece uma percepção relatada por integrantes de campanhas do PT em 2026: militantes afirmam que em alguns locais, a presença de materiais físicos parece mais discreta, abrindo espaço para uma reflexão sobre como fazer comunicação eleitoral sem sobrecarregar visualmente o ambiente urbano. Não há, porém, levantamento nacional que permita afirmar uma redução percentual em relação a eleições anteriores. O que existe é uma escolha que pode ser observada em determinadas campanhas e territórios: reduzir a dependência da comunicação física e apostar também na presença direta. A própria Justiça Eleitoral estabelece limites para a propaganda em espaços públicos: nas eleições de 2026, por exemplo, é proibida a colocação de propaganda em árvores e jardins de áreas públicas, além de muros, cercas e tapumes.
Toda eleição transforma, ainda que temporariamente, a paisagem das cidades. Bandeiras, cartazes, adesivos e materiais gráficos passam a disputar espaço com calçadas, fachadas, praças e o caminho cotidiano de quem trabalha, estuda ou simplesmente circula.
Ecologia também é pensar no depois
A discussão ambiental entra justamente aí. Materiais de campanha são produzidos para um período específico e, depois da eleição, precisam ser recolhidos e ter destinação adequada. Não é possível, sem dados sobre quantidade, composição e destino desses materiais, calcular o impacto ambiental de uma campanha específica.
Mas pensar sobre o volume necessário de materiais físicos é também pensar sobre consumo e descarte. Existe uma dimensão ainda mais humana nessa escolha: quando a campanha não depende apenas de ocupar espaços com publicidade, cresce a importância de caminhar pelos bairros, visitar comunidades e conversar com as pessoas.
Em vez de apenas apresentar uma mensagem, o candidato ou militante pode ouvir problemas concretos — transporte, saúde, educação, emprego, segurança, custo de vida. É uma comunicação que troca parte da disputa pela paisagem pela presença no território.
“A gente está fazendo uma campanha de maneira diferente”
Essa é a percepção relatada por Ismael Paulo, coordenador da campanha de Emidio de Souza, candidato a deputado estadual (SP), que disputa a reeleição. Ismael conta que, durante suas andanças, conversou com muitas pessoas que comentaram sobre a menor presença de bandeiras e outros materiais do PT nas ruas. Segundo ele, algumas pessoas demonstraram satisfação com esse cenário. “É até bom, pois a gente está fazendo uma campanha de maneira diferente”, relata.
Política olho no olho
A discussão talvez seja menos sobre quantas bandeiras existem em uma esquina e mais sobre que tipo de presença a política quer construir nas cidades. A propaganda eleitoral é parte legítima do processo democrático e possui regras próprias; para 2026, o TSE estabelece, entre outras normas, limites para materiais e formas de divulgação nas ruas. Embora nenhuma regra impeça uma campanha de escolher também a conversa. Bater de porta em porta, caminhar pelo bairro, ouvir um trabalhador, uma mãe, um comerciante ou um aposentado é uma forma de comunicação que não deixa cartazes depois que a eleição termina.
Talvez seja justamente aí que sustentabilidade e empatia se encontram: em uma campanha que procura ocupar menos a paisagem e estar mais presente na vida real das pessoas.
Por Cristina Torelli (Galera Vermelha)











