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Gesto de ‘arminha’, aulas de tiro: bolsonarismo faz da infância palco do culto às armas

Caso investigado no RN, de criança que estaria com arma comemorando votação do 1º turno, reacende histórico de incentivo da família Bolsonaro ao manuseio de revólveres por menores

Ensinar crianças a simular tiros, exibir meninos com réplicas de fuzis em eventos oficiais e defender – e incentivar – que pais apresentem armas de fogo aos filhos: o bolsonarismo transformou a infância em vitrine de sua agenda armamentista. Muito antes do vídeo de um menino com uma suposta arma em um ato de apoiadores de Flávio Bolsonaro no Rio Grande do Norte, Jair Bolsonaro já incentivava publicamente essa aproximação e governava para facilitar o acesso da população a armamentos

A cena do município de Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, voltou a expor esse histórico. Nas imagens que repercutiram e viralizaram nas redes após o primeiro turno, uma criança aparece sobre o teto de um carro segurando um objeto semelhante a uma arma, enquanto adultos festejam ao redor. A Polícia Civil investiga as circunstâncias e ainda não confirmou se o objeto é uma arma de fogo real.

O incentivo de Bolsonaro foi além dos palanques: chegou aos decretos presidenciais, com a retirada da exigência de autorização judicial para o tiro esportivo por menores. O Governo Lula retomou restrições e reforçou o controle sobre o setor. A mudança a partir da posse de Lula também se refletiu na queda de compras de armas pelos chamados CACs, que caíram 91% entre 2022 e 2024, segundo levantamento da Folha de S.Paulo com dados do Exército analisados em parceria com o Instituto Sou da Paz.

Filhos atirando aos 5 anos
Em 23 de agosto de 2018, durante visita a Glicério, no interior de São Paulo, o então candidato à Presidência Jair Bsolaonro apresentou como exemplo a familiaridade dos próprios filhos com armas desde a primeira infância.

“Meus filhos todos atiraram com 5 anos de idade, real, não é de ficção nem de espoleta não, tá ok?”, declarou a jornalistas.

Na mesma data, em Araçatuba (SP), Bolsonaro voltou a incentivar que crianças fossem introduzidas ao universo das armas. “Eu defendo que um pai ensine o que é uma arma de fogo para seu filho, para que serve”, afirmou. Para justificar a posição, alegou que o país não poderia formar uma geração de pessoas submissas. Também atacou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), dizendo que deveria ser rasgado.

As declarações acompanhavam gestos repetidos diante das câmeras. Em julho daquele ano, em Goiânia, Bolsonaro pegou uma menina no colo e posicionou os dedos dela para imitar uma arma apontada ao público. A cena transformava uma criança em instrumento de propaganda de uma das principais bandeiras de sua candidatura.

Já na Presidência, repetiu a prática em compromissos oficiais. Em 23 de abril de 2021, em Manaus, disse “aponta aí” a um menino fardado que segurava um fuzil de brinquedo. Em 30 de setembro do mesmo ano, em Belo Horizonte, voltou a colocar em destaque uma criança com uniforme policial e uma réplica de arma. O episódio provocou manifestações de repúdio do Comitê dos Direitos da Criança da ONU e da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O incentivo virou decreto
Em maio de 2019, Bolsonaro assinou o Decreto nº 9.785, que dispensou autorização judicial para a prática de tiro esportivo por menores de 18 anos. A redação original exigia autorização de um dos responsáveis legais e limitava a atividade a locais autorizados pelo Exército, com arma da agremiação ou do responsável, quando acompanhado por ele.

A medida retirava uma barreira de proteção: a avaliação da Justiça. A publicidade com crianças e armas encontrava, assim, correspondência nas decisões do governo.

Em janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva restabeleceu a exigência de decisão judicial para a prática por adolescentes de 14 a 18 anos. O decreto de julho daquele ano manteve a necessidade de autorização judicial e acrescentou, entre as condições para essa faixa etária, avaliação individual e comprovação de aptidão psicológica.

O risco entra dentro de casa
A ideia de que espalhar armas significa proteger famílias é contestada pelas pesquisas sobre violência. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que o Brasil poderia ter registrado 6.379 homicídios a menos entre 2019 e 2021 se não tivesse ocorrido a expansão das armas de fogo. Segundo o levantamento, o aumento da circulação de armamentos impediu uma redução maior dos assassinatos no período.

Para as mulheres, a presença de uma arma no ambiente doméstico representa um risco adicional. Pesquisa coordenada pela professora Karina Cardoso Meira, do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), identificou mais de 26 mil mulheres assassinadas dentro de casa entre 2000 e 2022, cerca de três por dia. O levantamento utilizou informações do sistema de mortalidade do SUS e do Atlas da Violência.

Em entrevista à agência Saiba Mais, a pesquisadora apontou a maior circulação de armas entre os fatores que agravam a violência contra a mulher. Segundo ela, ter uma arma de fogo em casa é um dos principais fatores de risco para violência física e feminicídio.

A dimensão do problema também aparece na pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Datafolha. O levantamento estimou que 18,6 milhões de brasileiras de 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência ou agressão em 2022, o equivalente a aproximadamente 35 por minuto. O número inclui diferentes formas de violência, como ofensas verbais, ameaças e agressões físicas.

É nesse cenário que o histórico de Bolsonaro precisa ser lembrado: a aproximação de crianças com armas foi incentivada em discursos, encenada nos palanques e facilitada por decisões de governo. O caso do Rio Grande do Norte está sob investigação; a defesa pública dessa agenda pelo ex-presidente está documentada há anos.

Da Rede PT de Comunicação

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