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Flávio Bolsonaro foge das perguntas de Lula e troca explicações por ataques em debate

Cobrado sobre direitos das mulheres, jornada de trabalho, segurança pública e suas relações com Vorcaro e milicianos, candidato recorre a provocações e deixa questões sem resposta

Flávio Bolsonaro (PL) recorreu a ataques pessoais, ironias e mudanças de assunto para escapar das cobranças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro bloco do debate de segundo turno da Band, neste domingo, 18. Questionado sobre licença-maternidade, escala 6×1, armas, sua atuação no caso da morte de uma criança, o modelo de Javier Milei e os recursos negociados com Daniel Vorcaro para o filme sobre seu pai, o senador deixou questões centrais sem esclarecimento. Tentou transformar as perguntas em acusações contra Lula e sua família, desrespeitando também o eleitor brasileiro que acompanha o debate para conhecer as propostas e a trajetória dos candidatos.

A postura apareceu desde a primeira pergunta do confronto direto. Lula cobrou uma justificativa para o voto contrário à ampliação da licença-maternidade, em 2009, quando Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro. A cobrança expôs uma contradição entre o discurso de proteção à família e seu histórico contra direitos das mulheres e dos trabalhadores. Em vez de explicar a decisão, o candidato passou a fazer acusações envolvendo o filho de Lula.

A mesma postura marcou a discussão sobre os recursos negociados com Vorcaro para financiar Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Diante das cobranças por esclarecimentos, Flávio exaltou o pai e desviou a conversa para outros assuntos. Não detalhou o caminho do dinheiro nem esclareceu as inconsistências apontadas por Lula.

Licença-maternidade e 6×1 sem explicações
Lula insistiu na pergunta sobre o direito das mães de permanecer mais tempo com os filhos recém-nascidos. A proposta discutida na Assembleia Legislativa do Rio em 2009, apresentada por Marcelo Freixo, garantia seis meses de licença às servidoras estaduais, com possibilidade de prorrogação por mais três. Flávio foi o único voto contrário na primeira votação, aprovada por 45 a 1. O benefício ampliava o período de convivência e cuidados com o bebê nos primeiros meses de vida.

“Você não respondeu a pergunta. O que que você tem contra garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança? Por que que você votou contra?”, cobrou.

O senador não apresentou uma justificativa para o voto. Preferiu continuar os ataques à família do adversário, deixando sem resposta a questão concreta sobre sua atuação parlamentar.

O fim da escala 6×1 também entrou no confronto. Lula pressionou Flávio a esclarecer sua posição sobre a jornada de trabalho e seu histórico de oposição à mudança. Antes de se posicionar, o candidato passou a ironizar os gestos e a maneira de falar do presidente, tentando associá-los à mentira.

A cobrança tem como pano de fundo a atuação do próprio coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), que trabalhou para dificultar o avanço da redução da jornada. Marinho apresentou a PEC 12/2026, que permite um regime de contratação por hora, com remuneração e direitos proporcionais ao tempo trabalhado. A proposta foi denunciada por parlamentares petistas como uma ameaça à proteção dos trabalhadores.

Flávio acabou votando remotamente a favor do fim da 6×1 enquanto fazia campanha no Rio Grande do Sul. Mas o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, anunciou a intenção de reapresentar em 2027, caso o senador seja eleito, a proposta de jornada flexível negociada entre empregado e patrão. É essa perspectiva de mudar as regras que dá sentido à cobrança sobre o compromisso do candidato com a conquista.

Flávio não explicou a posição anterior cobrada por Lula nem enfrentou essa contradição com os planos de seus aliados. Voltou a uma sequência de ataques ao governo.

A discussão sobre o futuro dos direitos sociais também apareceu quando Lula questionou a admiração do adversário pelo modelo de Javier Milei. Na Argentina, a política de cortes levou estudantes, professores e trabalhadores às ruas na quinta-feira, 15, na quinta Marcha Federal Universitária. Os manifestantes cobraram financiamento para as instituições, recuperação salarial e cumprimento da Lei de Financiamento Universitário.

A ligação com o Brasil é concreta: Flávio propõe retirar as universidades do Ministério da Educação, mudança que despertou preocupação entre representantes das instituições federais quanto à preservação do orçamento. A educação tem um piso constitucional de investimentos, proteção que não existe da mesma forma na área de ciência e tecnologia, para onde o candidato pretende transferir o ensino superior.

“Você vai pedir a motosserra emprestada do Milei?”, provocou Lula. Flávio voltou a falar em corrupção, sem esclarecer quais seriam os efeitos de seu projeto sobre os serviços públicos. O presidente insistiu: “A tesourada vai cair nas costas de quem?”.

Criança morta e fim do rastreamento de balas
Na segurança pública, Lula cobrou explicações sobre a atuação de Flávio Bolsonaro em favor de um policial acusado de matar uma criança de 5 anos, atingida por um tiro de fuzil.

“Você era senador da República e foi interferir para que um policial que matou uma criança de 5 anos com a bala de fuzil não fosse preso. Me explica por que você fez isso”, questionou.

Ana Clara Gomes Machado brincava na porta de casa, ao lado do irmão de dois anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil e morreu, em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói (RJ). Flávio, já senador, atuou na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de matar a menina.

Flávio desviou o assunto para o voto de pessoas presas e tentou associar os eleitores de Lula à criminalidade. Invocou o exercício da advocacia e a ausência de julgamento, mas não esclareceu a intervenção questionada pelo presidente. Em seguida, retomou ataques pessoais.

Lula também perguntou por que o adversário queria retirar mecanismos de identificação de munições, utilizados para rastrear a origem dos disparos de armas de fogo. Flávio negou a intenção, sem explicar sua atuação em favor do projeto questionado, e passou a responsabilizar o governo pela entrada de armas ilegais.

A discussão envolve o PL 3.723/2019, cuja versão aprovada pela Câmara prevê eliminar exigências de identificação nas embalagens de munições e de marcação de lote e comprador nos cartuchos destinados a órgãos de segurança e outras categorias autorizadas. Esses registros ajudam investigadores a descobrir de onde saiu uma munição encontrada em uma cena de crime e a identificar possíveis desvios de estoques legais.

Em reunião da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em março de 2022, Flávio pressionou pela votação do projeto e sugeriu abandonar concessões negociadas com parlamentares contrários à flexibilização.

“Você não vai responder, pelo amor de Deus. Três perguntas, você não responde nenhuma”, reagiu Lula.

O presidente ainda confrontou o adversário sobre a ampliação do acesso a armas no governo Bolsonaro e o desvio de armamento para o crime organizado. Flávio voltou a deslocar a discussão para armas ilegais, sem enfrentar a cobrança sobre os efeitos da política adotada pelo pai.

Vorcaro e INSS: ataques no lugar de esclarecimentos
Um dos momentos de maior insistência de Lula envolveu os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. O petista pediu repetidamente que o senador explicasse o destino dos recursos.

Documentos e mensagens revelados pelo Intercept Brasil mostraram a negociação de um aporte de quase US$ 24 milhões, equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época. Desse montante, foram identificadas ao menos seis transferências que somavam US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões. Parte dos recursos saiu da Entre Investimentos e Participações para um fundo nos Estados Unidos controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

“Explica os 134 milhões, é só isso que eu quero. A diretora do filme disse que não recebeu”, afirmou Lula.

A cobrança envolve lacunas que uma simples referência ao filme não resolve. Uma perícia privada apresentada pela defesa da produtora apontou despesas de aproximadamente R$ 75 milhões, mas não identificou todos os destinatários dos pagamentos nem apresentou contratos e notas fiscais que permitissem conferir os gastos. A Polícia Federal abriu investigação para rastrear os recursos e apurar possíveis irregularidades e contrapartidas.

Flávio sustentou que o dinheiro se destinava à produção, mas não apresentou no bloco uma prestação de contas que respondesse às cobranças. Preferiu elogiar Jair Bolsonaro, provocar o adversário e direcionar o público às suas redes sociais. Em outro momento, mudou o tema.

“Eu falei de você explicar os 134 milhões e você vai falar de Bolsa Família”, observou Lula, expondo a mudança de assunto.

Na discussão sobre as fraudes contra aposentados do INSS, Lula cobrou esclarecimentos sobre a expansão do esquema durante a gestão Bolsonaro. O histórico das investigações mostra que as denúncias são anteriores ao atual governo e que mudanças adotadas entre 2019 e 2022 facilitaram a atuação de entidades que realizavam descontos sem autorização nos benefícios.

O mecanismo atingia diretamente a renda de aposentados e pensionistas: associações cobravam mensalidades descontadas dos benefícios sem o consentimento dos segurados. A investigação conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União no governo Lula levou à Operação Sem Desconto, em 2025. A auditoria também identificou entidades sem estrutura para prestar os serviços que alegavam oferecer.

Além de investigar os envolvidos, o governo iniciou o ressarcimento das vítimas. Até março de 2026, cerca de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas haviam recebido de volta R$ 2,9 bilhões, segundo dados do INSS.

No debate, Lula afirmou que sua gestão investigou e desarticulou o esquema e iniciou a reparação aos aposentados. Também respondeu às tentativas de envolver seus familiares afirmando que ninguém deve ficar protegido de investigação.

“Se tiver investigação, se tiver problema, será investigado. Seja meu filho, seja meu irmão, qualquer um. Eu não escondo nem mudo o diretor da Polícia Federal e nem mando o ministro ir embora que não quis trocar o diretor da Polícia Federal”, declarou.

Depois de sucessivas perguntas seguidas de desvios e provocações, Lula resumiu a postura do adversário no confronto: “Até agora ele se preparou para não responder nenhuma pergunta”.

Da Rede PT de Comunicação

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