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Crise ambiental e futuro do Brasil reúnem João Pedro Stedile, Leonardo Boff e Camila Fachin na 23ª Jornada de Agroecologia em Curitiba

Diante da crise estrutural do capitalismo, conferência convoca a sociedade para a organização popular e defende a agroecologia como projeto de país

A capital paranaense sediou a 23ª Jornada de Agroecologia, um evento histórico organizado por mais de 60 coletivos e movimentos populares. Ao longo de quatro dias de atividades formativas, culturais e feiras, o encontro buscou apresentar o modelo agroecológico não apenas como técnica agrícola, mas como um projeto estruturante e alternativo para a sociedade brasileira.

O ponto alto do debate ocorreu no sábado (20), com a conferência “Desafios para entender a crise ambiental e construção de um projeto alternativo de sociedade”. O painel reuniu o teólogo Leonardo Boff, o dirigente do MST João Pedro Stedile e a vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Camila Girardi Fachin.

Arte e resistência na abertura
Antes dos debates políticos, o tom do seminário foi dado pela Orquestra Popular Camponesa. O projeto de iniciação musical levou ao palco 40 instrumentistas sem-terra, com idades entre 9 e 18 anos, vindos de acampamentos e assentamentos do MST no Paraná.

Sob a regência do coordenador Igor de Nadai, o grupo apresentou um “Concerto pela paz”, executando desde a Ode à Alegria de Beethoven até hinos de protesto latino-americanos como El Derecho de Vivir en Paz, de Victor Jara.

“Todas as crianças têm direito à música, ao ensino de música. E isso é possível em comunidades transformadas, em que a reforma agrária é exemplo dessa transformação”, destacou Nadai.

Solidariedade contra a barbárie
O teólogo Leonardo Boff iniciou os discursos resgatando o conceito de solidariedade como a força que permitiu a transição evolutiva “da animalidade para a humanidade”. Boff criticou duramente o modelo econômico vigente e a passividade internacional diante de crises humanitárias globais, como a na Faixa de Gaza. Segundo o teólogo, o sistema atual prioriza a competição desenfreada em detrimento da cooperação. Ele também defendeu a espiritualidade como uma dimensão intrínseca do ser humano, ao lado da inteligência e da sensibilidade, essencial para responder às grandes questões existenciais.

A crise estrutural do capital
Em sua análise de conjuntura, João Pedro Stedile apontou que o planeta enfrenta uma crise multifacetada — que une fatores ambientais, tecnológicos, econômicos e de valores humanistas. Para o dirigente do MST, o capitalismo perdeu a capacidade de organizar a vida social em benefício da população.

“Os capitalistas estão acumulando muito dinheiro, cada vez mais concentrado, porém o sistema capitalista não consegue mais organizar a produção e a vida social em benefício das necessidades das pessoas”, denunciou Stedile.

Stedile alertou ainda para a crise organizativa da classe trabalhadora, influenciada por ideologias de direita, e apontou que o caminho para a mudança exige debate coletivo e a retomada das lutas de massa.

O papel da ciência e da universidade pública
A vice-reitora da UFPR, Camila Fachin, contextualizou a agroecologia como uma reorganização profunda da relação entre a humanidade e a natureza. Ela defendeu que a universidade pública precisa se manter de portas abertas para os saberes populares. Para Fachin, o projeto alternativo de sociedade já é uma realidade semeada em assentamentos, escolas e comunidades. A UFPR atua como anfitriã da Jornada de Agroecologia desde 2017.

A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), contando com o apoio de diversas instituições, movimentos sociais, da UFPR e do Ministério da Saúde. A programação do evento seguiu com oficinas práticas, seminários e apresentações culturais de rap, batalhas de rima e percussão popular.

Foto: Danielle Freitas (divulgação)

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