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Ambientalista do ABC sofre atentado enquanto inspecionava obra da Sabesp alvo de denúncias

Em maio, José Soares (de pé, roupa preta e punho erguido ao lado do caixão simbólico) participou de ato contra a obra da Sabesp em Rio Grande da Serra

O ambientalista José Soares da Silva, integrante do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) de Rio Grande da Serra e vice-presidente do Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC (MDV-ABC), denunciou ter sido vítima de um atentado violento na tarde do dia 8 de junho. O ataque ocorreu enquanto Soares realizava uma inspeção visual e registrava imagens de uma área ligada à obra de interligação entre a represa Billings e o Sistema Alto Tietê (projeto de transposição Billings-Taiaçupeba). O empreendimento, conduzido pela Sabesp e interligado a ações da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), está orçado em R$ 1,4 bilhão e é alvo de inquérito civil no Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Segundo o relato de Soares, ele fotografava o local para reunir provas de possíveis passivos ambientais, como pontos de descarte irregular de resíduos, que seriam encaminhadas ao MP-SP. Durante a atividade, o conselheiro, que representava o Instituto CausAmbientalis, foi abordado por dois homens encapuzados. Ele foi agredido violentamente com golpes concentrados na região do rosto e da boca, além de sofrer ameaças de morte. Entre as frases disparadas pelos agressores, Soares destaca ter ouvido: “Atira na cabeça dele aqui mesmo”.

Mesmo ferido, ele conseguiu fugir e recebeu atendimento médico em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Os criminosos fugiram levando seu aparelho celular — onde estavam as fotos da fiscalização —, além de documentos e cartões. O caso foi registrado na Polícia Civil.

Uma trajetória moldada na defesa das águas do ABC
José Soares da Silva possui uma trajetória histórica de décadas na proteção ambiental da região, iniciada originalmente nos movimentos operários do ABC. Ao longo dos anos, sua militância focou na preservação dos mananciais e no direito à água, buscando sempre aproximar o debate técnico da vida concreta dos moradores locais.

O ativista relembra que a relação com a Sabesp nem sempre foi de embate, já tendo participado de iniciativas conjuntas de educação ambiental. Contudo, o conflito se acirrou com os projetos de transposição na represa Billings, como a campanha que liderou em 2015 contra intervenções no município. Bem-humorado apesar do cenário, Soares recorda que os ambientalistas locais já foram chamados de “ecochatos” e, mais recentemente, de “biodesagradáveis”. Ao refletir sobre o peso de sua atuação, ele resume o propósito da luta:

“Nós estamos defendendo até aqueles que nem chegaram ainda. As minhas netas nem sabem dessas discussões que nós estamos fazendo, mas é para elas que nós temos que deixar.”

Movimentos sociais e órgãos públicos cobram apuração rigorosa
A Frente Ambientalista do ABCDMRR publicou uma nota classificando a agressão como uma tentativa clara de intimidação contra o movimento socioambiental da região. Para a entidade, o acompanhamento público é crucial: “A melhor proteção que o Soares e que o movimento podem ter agora é através da publicidade dessa agressão intimidatória”. A Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), coordenada pela deputada estadual Marina Helou (Rede), também emitiu nota de repúdio à violência e prestou solidariedade ao conselheiro.

O Comdema de Rio Grande da Serra manifestou profunda preocupação com o episódio, ressaltando o risco de agressões a cidadãos no exercício do controle social e da defesa do interesse público. O órgão informou que tomou conhecimento do caso pelas redes de comunicação interna e espera uma apuração rigorosa dentro do devido processo legal. O conselho destacou ainda que, até o momento, não houve interrupção em suas atividades de fiscalização da obra de interligação Billings–Alto Tietê.

Órgãos de imprensa informaram que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que o caso é investigado como roubo pela Delegacia de Rio Grande da Serra e que realiza diligências para identificar os autores. Já a Sabesp declarou que não iria se manifestar sobre o caso, alegando que não há qualquer elemento que indique vínculo entre a agressão e a companhia. A Prefeitura de Rio Grande da Serra também não havia se manifestado.

Foto: Divulgação/Frente Ambientalista do ABCDMRR

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