Levantamento revela impacto no orçamento doméstico: 72% das apostadoras são mães e 12% sofrem consequências das apostas de familiares
Quando a professora Vânia de Souza Borges, 54 anos, esteve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levou consigo a história do filho e um pedido em nome de outras mães. Ela pediu que a ação contra as bets fosse além da regulamentação.
“Eu pedi em nome de todas as mães que estão sofrendo com esse problema. Acabe com isso, corte o mal pela raiz. Só regulamentar não basta”, relatou.
Vânia perdeu seu filho, Rafael Borges Amaral, de 26 anos, para o vício em jogos, chamado de ludopatia. Jovem empreendedor de Uberlândia (MG), ele tirou a própria vida num momento de desespero por causa das dívidas que contraiu em função das apostas.
A mãe lembra que Rafael tinha uma trajetória marcada pela prática de esportes e pela organização financeira. Na adolescência, integrou a equipe mineira de natação e obteve resultados expressivos em competições. A relação com as bets mudou esse percurso. Rafael vendeu seus bens e utilizou as economias nas plataformas de apostas.
“Ao contrário da maioria, o Rafael vendeu tudo o que ele tinha e jogou todo o dinheiro que havia juntado, todas as economias dele nessas bets”, relata Vânia.
Ela analisa que a facilidade de acesso aos jogos pelo celular e a publicidade associada à promessa de ganhos rápidos contribuíram para o agravamento da dependência. O caso de Rafael também passou a integrar documentos do Congresso Nacional e inspirou o chamado “Projeto de Lei Rafael”, voltado à responsabilização solidária das redes de difusão das plataformas.
Prejuízo além do material
Uma pesquisa nacional realizada em julho de 2026 pelo Estúdio Clarice, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, ouviu 2.008 pessoas, entre elas 1.062 mulheres. O levantamento aponta que 42% das brasileiras entrevistadas já apostaram ou continuam jogando. Entre elas, 65% não procuram apoio especializado por vergonha ou medo do julgamento social.
O estudo também aponta que 72% das apostadoras atuais são mães. A tentativa de complementar a renda doméstica aparece como uma das razões para recorrer às plataformas, em uma realidade na qual a promessa de dinheiro rápido se mistura às dificuldades de sustentar o orçamento familiar.
Mesmo mulheres que nunca apostaram são diretamente afetadas. O levantamento aponta que 12% das brasileiras enfrentam impactos financeiros e psicológicos provocados pelas apostas feitas por familiares. Entre as consequências relatadas estão violência patrimonial, perda de confiança e comprometimento da segurança financeira do lar.
Simoni Santos, líder comunitária e produtora cultural da Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, acompanha relatos de mulheres que viram o dinheiro destinado à alimentação, às contas da casa e às necessidades dos filhos ser comprometido pelas apostas.
“Algumas mulheres começaram a me relatar que o dinheiro que deveria ser usado para alimentação, contas da casa e necessidades dos filhos estava sendo comprometido com apostas online”, conta.
“Não aposte sua saúde”
A resposta do governo federal veio com a edição da Medida Provisória (MP) que determina o bloqueio das plataformas de apostas online e dos cassinos virtuais e impede que bancos processem transações relacionadas às atividades.
A MP integra uma resposta mais ampla do governo federal. Paralelamente, o Executivo enviou ao Congresso Nacional um Projeto de Lei para transformar a exploração ilegal de apostas em crime, com previsão de pena de prisão e responsabilização de empresas e influenciadores digitais envolvidos na atividade.
A atuação também inclui ações voltadas à saúde pública e ao atendimento das pessoas afetadas pelo jogo compulsivo. O Ministério das Mulheres lançou a campanha “Não Aposte Sua Saúde” e ampliou a rede de acolhimento, com teleatendimento especializado para apostadoras e para mulheres atingidas pelo comportamento compulsivo de familiares.
O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer atendimento especializado para pessoas afetadas pelas apostas e seus familiares. Também foram estabelecidas orientações para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e criada uma linha nacional de cuidado para pessoas afetadas por jogos de apostas. Em 2026, a capacidade de atendimento foi ampliada para até 100 mil atendimentos mensais diante do crescimento da demanda.
Da Redação do Elas por Elas.











