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PT pede investigação detalhada sobre licenças, distribuição e dinheiro para filme de Bolsonaro

Partido aciona PF, Supremo e Ministério Público Eleitoral, cobrando pente-fino em registros na Ancine, contratos, seguros, e fluxo milionário ligado a Vorcaro

O Partido dos Trabalhadores protocolou três pedidos de investigação, na Polícia Federal, no Supremo Tribunal Federal e no Ministério Público Eleitoral, para apurar em profundidade suspeitas financeiras, operacionais e eleitorais que rondam o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O filme, previsto para estrear em 11 de setembro de 2026, em plena campanha eleitoral, seria uma possível peça de propaganda política disfarçada de produção cinematográfica.

O ponto mais novo da notícia de fato elaborada pelo partido é o pedido para que se faça um verdadeiro pente-fino na estrutura do filme, que teria um custo milionário que supera o de grandes produções nacionais e internacionais premiadas. Segundo as argumentações apresentadas na peça jurídica protocolada pelo partido, “há de se convir que é de difícil credibilidade a narrativa de que a integralidade dos recursos destinados por Daniel Vorcaro seria utilizada na produção do filme sobre Jair Bolsonaro”.

O PT quer que as autoridades investiguem se a produção possui licenças municipais para filmagem, registro na Agência Nacional do Cinema (Ancine), contratos de distribuição, seguro compatível com uma superprodução internacional, cadeia de direitos autorais, documentação de copyright e regularidade trabalhista e migratória de profissionais estrangeiros, como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Outro ponto é a apuração de possível “desvio de finalidade e execução irregular de emendas parlamentares voltadas a projetos culturais e organizações não governamentais”. “A investigação mostra-se particularmente necessária para afastar ou confirmar a eventual utilização de recursos públicos, direta ou indiretamente, em atividades com potencial finalidade político-eleitoral”, sustenta a petição do PT.

“Uma produção audiovisual de grande alcance, construída para retratar de forma elogiosa determinada figura política e lançada em pleno período eleitoral, possui potencial objetivo de ampliar a exposição positiva de agentes políticos a ela associados, influenciando o debate público”, aponta o pedido petista ao STF, PF e MPE.

Quem controla o filme? PT cobra documentos
O PT também pede a checagem de registros junto à Agência Nacional do Cinema, à Biblioteca Nacional e ao U.S. Copyright Office, além de documentos que comprovem quem detém os direitos sobre a história, o roteiro, a direção, a distribuição, o corte final e a exploração comercial da obra.

A ausência dessa cadeia documental, comum em grandes produções, pode revelar quem realmente controla o filme e quem se beneficia de sua divulgação.

Para o partido, investigar a regularidade da produção é tão importante quanto rastrear o dinheiro. Uma obra lançada no auge do processo eleitoral, dedicada a exaltar Jair Bolsonaro e seu grupo político, não pode circular como se fosse apenas entretenimento quando há suspeitas de financiamento milionário, caixa dois, uso de recursos públicos e articulação internacional.

Filme ou campanha eleitoral?
A Notícia de Fato sustenta que Dark Horse ultrapassa os limites de uma obra cultural comum. O filme retrata Jair Bolsonaro sob uma narrativa heróica e tem lançamento previsto para menos de um mês da eleição. Para o PT, a combinação entre conteúdo, financiamento e calendário eleitoral exige atuação imediata das instituições.

A obra não beneficia apenas o ex-presidente. Flávio Bolsonaro, apontado como pré-candidato à Presidência da República, é interpretado pelo ator Marcus Ornellas. Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, também mencionados como possíveis candidatos ao Senado, aparecem representados no filme. Na prática, a produção projeta todo o núcleo político familiar de Bolsonaro no momento mais sensível da disputa eleitoral.

O próprio Flávio Bolsonaro divulgou o trailer nas redes sociais e chamou o filme de “o mais aguardado do ano”, afirmando que ele contaria a história de “um verdadeiro herói”. A fala reforça que a obra é usada como instrumento de promoção política por quem pode ser diretamente beneficiado nas urnas.

A petição lembra que a Justiça Eleitoral já enfrentou situação semelhante em 2022, quando o TSE suspendeu a divulgação de documentário da Brasil Paralelo às vésperas do segundo turno. O entendimento é que a análise não se limita à forma do conteúdo, mas aos seus efeitos concretos sobre a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Milhões de Vorcaro e suspeita de caixa dois
O outro eixo da investigação é o financiamento de Dark Horse. Reportagens citadas na ação apontam que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, teria repassado US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões à época, para a produção do filme. As tratativas teriam envolvido ainda um pedido de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões, feito por Flávio Bolsonaro.

O volume de dinheiro chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo destino político que pode ter assumido. A suspeita é que recursos apresentados como investimento cinematográfico tenham servido, direta ou indiretamente, para financiar estrutura política ligada à pré-campanha de Flávio Bolsonaro.

A Notícia de Fato pede a apuração de possível abuso de poder econômico e caixa dois eleitoral. O partido argumenta que uma produção milionária, construída para exaltar o principal líder do bolsonarismo e lançada no auge da campanha, pode desequilibrar a disputa democrática se estiver fora dos mecanismos de controle da Justiça Eleitoral.

A ação também aponta contradições entre os valores milionários anunciados e a execução concreta do filme. Reportagens mencionadas no documento relataram cortes de equipe, dificuldades com locações, pagamentos em espécie, remuneração reduzida de figurantes, ausência de documentação fiscal em determinadas operações e até denúncias sobre alimentação inadequada no set.

A diferença entre o dinheiro mobilizado e a precariedade relatada nos bastidores reforça a necessidade de rastrear cada etapa da movimentação financeira.

Havengate, Texas e Eduardo Bolsonaro
A investigação solicitada também mira o caminho internacional do dinheiro. Parte dos recursos associados ao filme teria passado pelo Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e ligado ao advogado Paulo Calixto, que atua na defesa de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

O partido quer esclarecer quem controlou os recursos no exterior, quem eram os beneficiários reais das operações e se houve desvio de finalidade. A apuração também deve verificar se estruturas montadas no Texas serviram para sustentar atividades políticas de Eduardo Bolsonaro e de aliados da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

O PT pede ainda cooperação jurídica internacional para avaliar eventual incidência do Foreign Agents Registration Act, legislação norte-americana que regula atividades políticas e informativas realizadas nos Estados Unidos em favor de interesses estrangeiros.

Emendas e recursos públicos na mira
Além do dinheiro ligado a Vorcaro, a Notícia de Fato pede investigação sobre possível uso de recursos públicos em entidades relacionadas a Karina Gama, produtora de Dark Horse e sócia da Go Up Entertainment.

A petição cita o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, que firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo para o programa WiFi Livre SP. Investigações mencionadas no documento apontam suspeitas de confusão patrimonial e de desvio de recursos públicos que poderiam ter ligação com atividades da produtora.

O PT também aponta repasses de emendas parlamentares a entidades vinculadas à rede de Karina Gama, incluindo o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura. A suspeita é que recursos destinados formalmente a projetos culturais ou sociais possam ter sido usados de forma irregular ou sem a execução prevista.

Para o partido, o conjunto de indícios exige uma investigação ampla, capaz de cruzar contratos públicos, emendas parlamentares, empresas, organizações sociais, produtoras, fundos no exterior e agentes políticos envolvidos no projeto.

Defesa da democracia e da lisura eleitoral
A investigação não busca censurar obra cultural nem impedir a produção audiovisual. O objetivo é garantir que nenhum grupo político use dinheiro opaco, estruturas internacionais, recursos públicos ou uma superprodução cinematográfica para burlar as regras eleitorais e obter vantagem indevida na campanha.

A legenda pede a abertura de procedimento investigatório para apurar possíveis crimes eleitorais e conexos, como abuso de poder econômico, caixa dois, lavagem de recursos, desvio de finalidade e financiamento clandestino de atividade política.

A democracia exige transparência. Se Dark Horse é apresentado como filme, deve comprovar sua regularidade como filme. Se funciona como peça de propaganda política, precisa ser investigado como instrumento de campanha. O que não pode, sustenta o partido, é uma operação milionária ligada ao bolsonarismo circular sem controle institucional no momento decisivo da eleição.

Da Rede PT de Comunicação

 

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