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Governo Lula pede investigação após denúncia de financiamento de Trump a ações contra o STF

PF e PGR são acionadas para apurar possível destinação de US$ 1 mi a grupos contrários ao Supremo; revelação do The Guardian acende alerta sobre interferência estrangeira no Brasil

O Governo Lula reagiu à denúncia de financiamento de ações contra as instituições brasileiras pelo governo de Donald Trump e pediu, nesta quinta-feira, 1º, que a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) investiguem o caso. A iniciativa da Advocacia-Geral da União (AGU) busca apurar o possível uso de dinheiro público dos Estados Unidos para sustentar grupos que atuam contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e interferem no debate político do país, a três dias do primeiro turno das eleições.

O pedido foi motivado por reportagem publicada na quarta-feira, 30, pelo jornal britânico The Guardian. Segundo a publicação, o Departamento de Estado norte-americano destinou US$ 1 milhão de um fundo de direitos humanos e democracia a um programa chamado “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”. A iniciativa financiaria organizações contrárias ao que o projeto classifica como excessos judiciais e censura por parte do Supremo. Ainda não há confirmação de que os recursos tenham sido efetivamente transferidos.

A reação se soma às iniciativas para proteger a soberania brasileira diante da pressão externa. O PT já havia acionado o STF para apurar suspeitas de financiamento estrangeiro ligado à campanha de Flávio Bolsonaro, em outro caso, e denunciado a oferta de riquezas minerais brasileiras aos interesses dos Estados Unidos.

Na notícia-crime assinada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, e por outros três integrantes da instituição, a AGU aponta que os recursos teriam como “objetivo explícito o financiamento e a sustentação financeira de entidades e grupos da sociedade civil focados em desestabilizar e atentar contra a institucionalidade do Poder Judiciário brasileiro”.

Para a instituição, as informações são especialmente graves diante do processo eleitoral em curso e dos episódios recentes de pressão externa sobre o Brasil. A apuração deverá esclarecer os fatos e identificar os responsáveis e os eventuais destinatários do dinheiro no país.

Em meio às denúncias de ingerência, Trump afirmou nesta quinta-feira, 1º, que acompanha “muito de perto” as eleições brasileiras. Em declaração a jornalistas na Casa Branca, a três dias do primeiro turno no Brasil, o presidente norte-americano classificou a disputa como “muito importante”, mas não citou candidatos nem declarou apoio a qualquer concorrente.

Jornal denuncia apoio de Trump a Bolsonaro
A denúncia do Guardian ganhou repercussão no mesmo momento em que outro grande jornal estrangeiro, o The New York Times, expôs preocupações com a atuação de Trump nas eleições brasileiras e descreveu medidas que favorecem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula na disputa presidencial.

O periódico norte-americano apresenta a eleição brasileira como o “maior teste” para Trump e para a ultradireita alinhada ao republicano na América Latina. Também destaca a postura de Lula diante das pressões de Washington, colocando o presidente brasileiro entre os governantes que resistem às investidas dos Estados Unidos contra os interesses de seus países.

Essa posição foi reafirmada pelo petista na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro. Em um discurso marcado pela defesa da soberania e por críticas à interferência estrangeira em processos políticos nacionais, Lula declarou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

O próprio Times pondera que uma tentativa de Trump de favorecer o candidato bolsonarista pode produzir o efeito contrário e fortalecer o presidente brasileiro.

“Está longe de claro se qualquer esforço dos EUA para ajudar Flávio Bolsonaro seria bem-sucedido. Isso poderia muito bem impulsionar o apoio a Lula, em outro exemplo do efeito ‘anti-Trump’ que remodelou eleições no Canadá, na Austrália e em outros lugares”, observa a publicação.

Para traçar o cenário brasileiro, o jornal ouviu autoridades do governo e do Judiciário, além de diplomatas, sob condição de anonimato. Segundo a reportagem, os entrevistados estão atentos ao risco de ingerência da Casa Branca e às possíveis consequências para a disputa eleitoral. Procurados pelo periódico, o Departamento de Estado dos EUA e a campanha de Flávio Bolsonaro não se manifestaram.

Riquezas brasileiras na mira de Washington
O interesse de Trump no resultado das urnas também passa pelas riquezas naturais do Brasil. De acordo com o New York Times, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ampliaria a influência de Washington na América Latina e aproximaria o país das prioridades norte-americanas em áreas como segurança e exploração de minerais críticos.

“O Brasil representa o maior prêmio remanescente. Enquanto presidente, Flávio Bolsonaro se alinharia aos Estados Unidos em questões como o crime organizado e os minerais críticos”, afirma a reportagem.

O jornal também menciona documentos elaborados por um aliado do senador, divulgados pela imprensa brasileira e checados pelo Times, que sugerem uma proposta de acesso dos Estados Unidos a minerais estratégicos em troca de apoio político.

“Documentos vazados escritos por um aliado de Flávio Bolsonaro, divulgados pela mídia brasileira e checados pelo The New York Times, sugerem que pessoas próximas ao candidato podem ter proposto dar aos Estados Unidos acesso aos minerais críticos do Brasil em troca de apoio”.

A articulação contrasta com a posição do governo Lula de exigir que a exploração dessas riquezas gere desenvolvimento, empregos e produção industrial em território nacional. O PT também apresentou uma proposta de criação de uma empresa pública para gerir minerais críticos e estratégicos e preservar a soberania sobre esses recursos.

O alinhamento do bolsonarismo a Trump aparece ainda nas manifestações de apoiadores relatadas pelo jornal. Em um comício recente, segundo o Times, participantes agitaram bandeiras dos Estados Unidos e exibiram um boneco inflável do republicano segurando outro de Lula preso.

Proteção às urnas e alerta para o pós-eleição
A reportagem norte-americana descreve medidas adotadas pelo Brasil para proteger a votação de possíveis interferências externas. Entre elas estão o combate à desinformação nas redes sociais, o fortalecimento da confiança nas urnas eletrônicas e regras eleitorais voltadas à atuação das plataformas digitais.

“Depois de assistir a Trump vadear em outras eleições e fracassar na tentativa de ajudar o pai de Flávio Bolsonaro [o ex-presidente Jair Bolsonaro] a escapar da prisão por planejar um golpe de Estado, o Brasil erigiu um muro de segurança para tentar proteger a votação de alto risco de uma potencial intromissão dos EUA”, afirma o jornal.

Entre os episódios citados pelo Times está a classificação, pelo governo norte-americano, do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A publicação relaciona a medida à pressão bolsonarista e ao peso da segurança pública no debate eleitoral.

O periódico também relata a tentativa de envio de uma comitiva norte-americana para visitar Jair Bolsonaro na prisão e examinar o funcionamento das urnas eletrônicas. As visitas foram barradas pelas autoridades brasileiras, com a recusa de vistos pelo Itamaraty.

A preocupação se estende ao período posterior à votação. O Times aponta o risco de que, em caso de derrota, Flávio Bolsonaro e seus aliados contestem os resultados e retomem os ataques ao sistema eleitoral utilizados por Jair Bolsonaro.

Segundo três diplomatas ouvidos pelo jornal, representantes da União Europeia, do Canadá, do Japão, da Austrália e de outros países mantêm conversas informais sobre uma possível resposta conjunta após as eleições.

A reportagem informa ainda que missões internacionais ampliaram suas equipes de observação. O Carter Center, organização independente sediada nos Estados Unidos, também decidiu enviar observadores, motivado, em parte, pelas preocupações com interferências externas.

Da Rede PT de Comunicação

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