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América Latina em disputa: o avanço da extrema direita e os caminhos para enfrentá-la

Especialistas analisam influência de presidentes, uso eleitoral da segurança pública e desafios da esquerda para conter projetos autoritários na região

A ultradireita continua a avançar sobre a América Latina. Essa guinada radical no continente reflete uma certa insatisfação popular com a economia, a corrupção e a segurança pública. Nos últimos anos, o mapa político da região, historicamente marcado por oscilações entre governos de esquerda e de direita, experimenta o fortalecimento de lideranças sectárias e populistas. A Rede PT de Comunicação conversou com dois especialistas da Universidade de Brasília (UnB) para traçar um panorama do atual contexto latino americano.

Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais pela UnB, elenca três fatores principais para explicar o crescimento do extremismo à direita na região: o fracasso dos governos de viés neoliberal nos anos 1990, o esgotamento dos projetos de esquerda dos anos 2000, principalmente depois da crise financeira de 2008, e a reação da extrema direita, já na década de 2010. Segundo Vidigal, não há razão imediata para que a ultradireita perca força, até porque o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, ainda não encerrou o mandato.

“A dimensão da impopularidade Trump, que tem efeitos inclusive entre seus aliados, será testada de fato no próximo novembro e, mesmo que o presidente estadunidense perca a maioria nas duas casas do Congresso, ele ainda terá pela frente dois anos de governo, uma vez que a possibilidade de um processo de impeachment é mínima”, avalia o especialista.

Para o professor André Borges de Carvalho, do Instituto de Ciência Política da UnB, a competitividade eleitoral da ultradireita se deve a mudanças culturais na América Latina e ao avanço de pautas progressistas, como o casamento entre pessoas de mesmo sexo. “Ao mesmo tempo em que você tem um crescimento de uma população evangélica, igrejas protestantes, que têm uma visão mais tradicionalista sobre os valores da sociedade”, observa.

Carvalho completa: “O resultado disso é que a gente tem uma espécie do que a literatura chama de ‘backlash’, que é uma espécie de reação cultural que é justamente o resultado de uma situação em que você tem uma mudança de valores na sociedade, mas essa mudança não é absorvida da mesma forma. Então me parece que esses partidos e candidatos que são da direita radical, da extrema direita, eles se beneficiam dessa situação”.

Eleições no Brasil
Depois das recentes vitórias de Abelardo de la Espriella na corrida presidencial colombiana e de Keiko Fujimori no Peru, ampliando o número de países latino americanos governados pela ultradireita, é a vez de o Brasil escolher um novo mandatário ou reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de outubro. O principal candidato da direita radical brasileira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é envolvido em uma série de denúncias que o ligam ao escândalo do Banco Master.

Vidigal entende que o Governo Lula tem poucas condições de adotar políticas de contenção em relação à ultradireita, além do que já está sendo feito. “Afinal de contas temos uma democracia liberal e uma justiça eleitoral que funciona mais ou menos bem”, lembra o professor. “Quanto à direita, além da cooptação política pelo Poder Executivo e negociações no Legislativo e, infelizmente, também no Judiciário, parte dela deve votar no atual presidente, que, inclusive, já se manifestou no reconhecimento de que não é um político ‘esquerdista’, ou seja, não é um problema para as relações Brasil-EUA”, completa.

Já Carvalho avalia que Washington pode, de alguma maneira, buscar influenciar as eleições brasileiras em prol do candidato alinhado a Trump e ao movimento Maga (“Make America Great Again”). “No que diz respeito ao Brasil, me parece que tem havido algumas tentativas bastante claras de interferir nos assuntos de política interna do Brasil”, afirma, antes de listar as ingerências praticadas pelo presidente do EUA.

“Acho que isso aconteceu naquela questão das tarifas, houve um aumento das tarifas de importação sobre produtos brasileiros, aquela carta que o Trump escreveu, deixando claro que a negociação sobre essas tarifas passaria por questões que diziam respeito a assuntos internos, a exemplo da condenação do ex-presidente Bolsonaro”, acrescenta Carvalho.

O fascínio do bolsonarismo por Bukele
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, uma das principais lideranças da direita radical na América Latina, conseguiu reduzir drasticamente os índices de criminalidade no país, antes um dos mais violentos do mundo, por meio de uma política de segurança pública altamente centralizada e severa. Em vias de conseguir o terceiro mandato, Bukele desperta o fascínio do bolsonarismo, que almeja implementar no Brasil regime de exceção semelhante para combater as organizações criminosas.

De acordo com Carvalho, a questão da segurança pública é crucial para a imagem que o presidente salvadorenho mantém junto à ultradireita latino americana. “Bukele é visto como a prova de que essa política linha dura funciona. E aí eu acho que tem um outro elemento que está relacionado ao primeiro e também ajuda a explicar um pouco a admiração que muitas lideranças de ultradireita têm pelo Bukele, que é o fato de ele representar um projeto autoritário. El Salvador hoje não é mais uma democracia”, explica.

Em seguida, o professor da UnB associa: “E aí me parece que, dentro da direita brasileira, de forma ampla, eu acho que é uma visão que encontra eco, essa ideia de que vale a pena sacrificar a democracia, o estado de direito, para poder garantir segurança”.

Como enfrentar a ultradireita
No México, a esquerda se consolidou a ponto de afastar a ultradireita. O ex-presidente Andrés Manuel López Obrador conseguiu reeleger sua sucessora, a presidenta Claudia Sheinbaum, sem muitos problemas. O segredo mexicano está na capacidade de lidar com a pauta de costumes, argumenta Carvalho.

“Eu suspeito que uma das razões para isso é o fato de que o Morena, que é o partido da Sheinbaum e do López Obrador, é um partido que é de esquerda, claramente, no que diz respeito à dimensão econômica, mas, no que diz respeito a uma dimensão que aqui no Brasil a gente chamaria de ‘pauta de costumes’, o Morena, ele é um partido mais conservador”, define o cientista político.

Por sua vez, Vidigal considera que, mesmo sendo derrotado na Colômbia, Iván Cepeda, candidato do ex-presidente Gustavo Petro, conseguiu resultado expressivo nas eleições, dado o histórico colombiano e os vínculos estreitos com os EUA: “No caso da Colômbia, desde as primeiras décadas do século XX, há uma forte relação diplomática com Washington, reflexo de relações econômicas igualmente densas. A exceção à regra foi a vitória eleitoral de Petro, primeiro presidente de esquerda no país, e, nesse sentido, a votação recebida por Cepeda deve ser vista de forma positiva”.

Diferenças entre ultradireitistas
Carvalho também fez questão de distinguir os governantes da ultradireita latino americana. À reportagem, ele mencionou os nomes dos presidentes da Argentina, Javier Milei, e do Chile, José Antonio Kast. Para o professor, Milei é uma “figura meio histriônica”, espécie de “Trump dos Pampas”, completamente alinhado aos interesses dos EUA.

“A gente tem que tomar cuidado para não colocar todos os gatos no mesmo saco, porque me parece, por exemplo, que o José Antonio Kast, presidente do Chile, ele tem um perfil um pouco diferente do Milei. O Milei é claramente uma figura anti-establishment”, comparou.

Da Rede PT de Comunicação

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