Reportagem da revista piauí mostra que imóvel foi vendido à empresa de amigo do senador com desconto de R$ 2 milhões; candidato fez reuniões e gravou vídeos no local
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) usou como base de campanha em São Paulo um apartamento que pertenceu a Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo reportagem da revista piauí, publicada nesta quarta-feira, 16, a propriedade passou à empresa do advogado Willer Tomaz, amigo do senador, em uma negociação marcada por desconto milionário e registro posterior ao bloqueio judicial dos bens do vendedor.
“O que não se sabia até agora é que, meses depois de trocar de mãos entre o operador de Vorcaro e Tomaz, o apartamento serviu de base em São Paulo para a campanha presidencial do senador”, afirma a revista. A revelação acrescenta um novo elemento às relações em torno do presidenciável e do banqueiro, sobre as quais Lula tem cobrado explicações, inclusive a respeito do financiamento do filme Dark Horse.
Localizado no edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, um dos bairros mais caros da capital paulista, o apartamento tem 158,87 metros quadrados, três vagas de garagem e varanda gourmet. De acordo com a publicação, Flávio permaneceu no local durante alguns dias da primeira quinzena de agosto, período em que cumpriu agendas eleitorais, reuniu integrantes da equipe e gravou vídeos para a campanha.
Desconto de R$ 2 milhões e bens bloqueados
Zettel comprou o apartamento em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Menos de dez meses depois, em 10 de fevereiro de 2026, vendeu a propriedade por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Willer Tomaz. A diferença representa uma perda nominal de R$ 2 milhões, aproximadamente 36% do valor desembolsado.
O negócio havia sido revelado pela Folha de S.Paulo e foi confirmado pela piauí, que descreve a operação como uma “transação a um só tempo curiosa e irregular”. Segundo a revista, a transferência foi registrada em cartório em 4 de março, dois meses depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar o bloqueio dos bens de Zettel. O registro ocorreu na mesma data em que ele foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero.
A reportagem também recupera informações da investigação do caso Master sobre o papel do cunhado de Vorcaro. Conforme o relato, a Polícia Federal identificou que o banqueiro controlava pagamentos realizados por empresas em nome de Zettel e considerou “cabalmente constatado” que ele atuava como interposta pessoa do dono do banco.
Mensagens apreendidas pela PF, segundo a publicação, mostram que Vorcaro recorria ao cunhado em negociações financeiras relacionadas a políticos e a negócios investigados, entre eles o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Imagens foram apagadas
Para verificar o uso do apartamento, a piauí conversou com moradores do edifício e com uma funcionária da escola onde eram estacionados os veículos da Polícia Legislativa. Os entrevistados confirmaram a presença de Flávio Bolsonaro e a circulação dos agentes responsáveis por sua segurança.
As varreduras nas áreas comuns incomodaram parte dos moradores, que solicitaram ao síndico acesso às gravações das câmeras. “Foram informados, porém, de que as gravações haviam sido apagadas acidentalmente”, relata a revista. Procurado para explicar o episódio e esclarecer se o condomínio havia sido avisado sobre a presença do candidato e dos policiais, o síndico não respondeu.
As versões apresentadas pelos envolvidos não esclareceram o uso da propriedade. Tomaz inicialmente negou, por telefone, que Flávio tivesse utilizado seu apartamento. Posteriormente, encaminhou nota na qual afirmou não conhecer Zettel nem Vorcaro, sem mencionar o senador.
A assessoria de Flávio Bolsonaro, por sua vez, disse à publicação que ele se hospedou apenas em hotéis da região. Questionada especificamente sobre qual uso o candidato havia feito do imóvel, não respondeu até a publicação da reportagem.
Amizade, viagens e imóveis em Angra
A relação entre Flávio e Tomaz remonta ao início do Governo Jair Bolsonaro, segundo a piauí. O advogado chegou a ser consultado para defender o senador no caso das rachadinhas, mas recusou sob a justificativa de estar ocupado com outros processos. A revista ressalta que Tomaz não é investigado no caso Master, mas é alvo do inquérito sobre fraudes no INSS.
A proximidade também alcança o escritório do presidenciável. Letícia Caetano dos Reis, responsável por sua administração, afirmou à Agência Pública que chegou ao posto por indicação de Tomaz. Ela é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, citado nas apurações sobre os elos empresariais de Flávio com pessoas ligadas ao Careca do INSS.
A publicação relata ainda viagens de lazer e o uso de propriedades do advogado pela família do senador. Em fevereiro, Flávio comemorou o aniversário da filha caçula em uma casa em Angra dos Reis ligada à empresa de Tomaz. Entre os demais investidores no imóvel está um fundo associado a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro.
A casa é administrada pela Prime You, empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual o banqueiro foi sócio. Tomaz também participou, por meio da companhia, de um jato que teve Vorcaro entre os proprietários. À revista, o advogado afirmou que sempre negociou diretamente com os executivos e a equipe comercial, sem intermediação do banqueiro.
Flávio também frequentou outra propriedade de Tomaz em Angra, situada na Ilha Comprida e envolvida em uma disputa judicial. Segundo a reportagem, o senador foi arrolado como testemunha do advogado. As decisões judiciais mencionadas pela publicação têm sido favoráveis a Tomaz.
Da Rede PT de Comunicação










