A secretária nacional de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC), Zara Figueiredo, e as jornalistas Basília Rodrigues e Ester Cauany, do SBT, foram vítimas de uma série de ataques racistas nas redes sociais. A violência cibernética ocorreu após a divulgação de uma chamada para o programa Sala de Imprensa, do portal SBT News, em que as três profissionais debatiam a persistência do racismo estrutural e as desigualdades raciais no país.
A publicação, veiculada na esteira do Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, recebeu dezenas de comentários ofensivos que atacavam diretamente a estética, os corpos, os cabelos e a legitimidade das profissionais.
Diante da gravidade das agressões, a secretária Zara Figueiredo confirmou que todos os registros visuais e as identidades associadas aos perfis já foram formalmente encaminhados à Polícia Federal para apuração. Em declaração, a gestora enfatizou que a reação violenta reflete a resistência à ocupação de espaços institucionais por pessoas negras:
“O sentimento diante disso tudo é a certeza de que ter mulheres negras em lugares de poder incomoda muito e que, cada vez mais, não devemos ter medo de enfrentar e pautar este debate”, afirmou a secretária do MEC.
Violência estética, uso de eufemismos e a ironia de Zara
As agressões concentraram-se majoritariamente em tentativas de ridicularizar os traços físicos e os cabelos das entrevistadas, prática recorrente de violência simbólica de gênero e raça. Comentários de tom pejorativo e desdenhoso buscaram desumanizar as profissionais e desqualificar sua presença na tela.
A análise das interações revelou também a utilização de jargões oriundos de comunidades digitais e jogos virtuais como forma de camuflar o preconceito. Diversos perfis utilizaram o termo em inglês “skin” (utilizado para se referir à aparência visual de um personagem) de forma depreciativa para despersonalizar as três mulheres.
Em vídeo gravado em resposta aos ataques, a professora Zara ironizou a falta de domínio da língua por parte dos próprios detratores, que chegaram a grafar o termo em inglês de maneira incorreta nas publicações:
“Detalhe, skin não se escreve assim. A preta vai ensinar para você: skin se escreve com N. No país onde 56% da população é negra, nós somos obrigatórios, necessários. Nós construímos esse país. Nós seguramos a democracia e a economia desse país”, rebateu a secretária.
“Racismo é crime no mundo real e no virtual”
A secretária do MEC rechaçou qualquer tentativa de enquadrar as agressões como liberdade de opinião ou debate, lembrando que a internet deve seguir os mesmos parâmetros legais da sociedade. “As regras do mundo real devem prevalecer também no ambiente virtual. Portanto, racismo é crime no mundo real e racismo é crime no virtual”, pontuou, reforçando que as mulheres negras continuarão ocupando cargos de decisão na República.
A jornalista Basília Rodrigues também se manifestou publicamente em solidariedade e repúdio às ofensas. “Entre as muitas formas de interromper uma mulher negra, há os comentários quanto à sua pele, cabelo, imagem e intelectualidade, dentro e fora da internet”, registrou a apresentadora.
Repercussão e rede de solidariedade
O episódio provocou forte indignação e mobilizou lideranças políticas e movimentos sociais. A deputada estadual de Minas Gerais e ex-ministra Macaé Evaristo publicou uma nota ressaltando que o massacre virtual não se trata de um fato isolado, mas de uma tática articulada de intimidação.
“Nada disso é coincidência, é método. O objetivo desses ataques nunca é debater. É interditar. É dizer para cada mulher negra que ousa ocupar um cargo, uma bancada, um microfone: esse lugar não é seu. Não vão conseguir nos calar”, declarou a parlamentar, cobrando a responsabilização criminal dos autores e maior rigor das plataformas virtuais.
O caso soma-se a outros episódios recentes de resistência contra políticas de igualdade racial, como os ataques recorrentes à implementação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de todo o país.










