O avanço do fenômeno climático “Super El Niño” acendeu um alerta vermelho para a sobrevivência das populações mais vulneráveis no Brasil. Em entrevista ao ICL Notícias, o padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo e pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, fez uma dura crítica à falta de preparação do poder público e cobrou ações preventivas imediatas das grandes metrópoles.
“Pessoas poderão perecer, desidratadas, sem socorro e sem espaços onde possam se proteger”, advertiu o religioso.
Segundo Lancellotti, grandes cidades como São Paulo ainda carecem de uma rede suficiente de pontos de hidratação e de uma estrutura de acolhimento adequada para enfrentar as temperaturas extremas que se desenham para o segundo semestre de 2026. “Se alguma dessas pessoas tiver insolação ou qualquer desgaste pela exposição ao calor excessivo, como é que elas serão socorridas?”, questionou.
Além da população de rua: os trabalhadores invisíveis
O líder católico destacou que a crise climática não afetará apenas quem dorme nas calçadas, mas também uma vasta camada de trabalhadores que dependem do espaço público para garantir o sustento e não possuem o conforto de ambientes refrigerados.
Entre os grupos sob maior risco, o padre listou:
• Catadores de materiais recicláveis e garis;
• Entregadores e descarregadores de caminhões;
• Trabalhadores informais e ambulantes.
“Todas as pessoas que têm a rua como espaço de vida e de trabalho serão afetadas”, enfatizou o religioso, lembrando o cenário dramático de trabalhadores expostos ao sol escaldante por longas horas sem acesso sequer a água potável.
Proposta emergencial e cobrança por prevenção
Diante da inércia governamental, Padre Júlio, em conjunto com membros da igreja, elaborou uma proposta para a instalação de pontos emergenciais de hidratação na capital paulista. O projeto prevê uma estrutura básica de socorro que inclui:
• Oferta de água potável e soro;
• Medição da temperatura corporal e aferição da pressão arterial;
• Atendimento inicial para sintomas graves de insolação.
Para Lancellotti, a falta de ação das autoridades é injustificável, dado que os dados científicos já estão disponíveis. “Já deveríamos ter coisas encaminhadas para isso”, cobrou, defendendo o início imediato das medidas antes que o calor atinja níveis críticos.
O que é o ‘Super El Niño’ e o impacto no Brasil
Confirmado recentemente pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA), o El Niño deste ano ganhou a alcunha de “Super” devido a projeções internacionais que apontam um aquecimento acelerado do Pacífico Equatorial, com anomalias de temperatura que podem variar entre 2°C e 3°C acima da média.
Em um planeta já transformado pelo aquecimento global, os impactos previstos para o território brasileiro desenham um cenário de extremos:
– No Centro-Oeste e Sudeste a expectativa é que haja Temperaturas muito mais elevadas e calor excessivo;
– No Sul, estima-se um aumento expressivo no volume de precipitações (chuvas intensas);
– No Norte e Nordeste pode haver uma redução drástica das chuvas, agravando a seca na Amazônia.
Os alertas emitidos pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelo ECMWF europeu reforçam que o segundo semestre de 2026 será marcado por um novo ciclo de extremos climáticos, tornando o plano de contingência social uma questão urgente de saúde pública.
Foto: Adriana Spaca, via Missionários da Consolata










