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Saúde Mental das Trabalhadoras e dos Trabalhadores da Saúde: um alerta urgente ao Parlamento e a sociedade – artigo da deputada Ana Paula Lima (PT-SC)

A crise da saúde mental das trabalhadoras e dos trabalhadores da saúde não é um problema individual nem circunstancial. Trata-se de um fenômeno estrutural, produzido por escolhas políticas que têm aprofundado a precarização do trabalho, intensificado jornadas e enfraquecido políticas de cuidado institucional. Ignorar esse cenário significa comprometer não apenas a dignidade dos trabalhadores, mas a própria sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dados nacionais já indicam que transtornos mentais como ansiedade, depressão, estresse crônico e Síndrome de Burnout estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Em Santa Catarina, conforme dados do Ministério da Previdência Social a situação é ainda mais alarmante. Em 2024, mais de 35 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais, colocando o Estado no quarto lugar do ranking entre os que mais concedem benefícios desse tipo no país (Brasil, 2024).

Pesquisa realizada pelo SindSaúde/SC para subsidiar a participação do sindicato no “Seminário de Saúde Mental das Trabalhadoras e dos Trabalhadores da Saúde de Santa Catarina” em primeiro de dezembro de dois mil e vinte e cinco, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina por proposição da Deputada Federal Ana Paula Lima do Partido dos Trabalhadores e realização da Comissão de Saúde do Congresso Nacional, mostra um cenário preocupante. Com a resposta de 300 trabalhadores e trabalhadoras da saúde ao questionário online que ficou disponível de 25 de novembro a 15 de dezembro de 2025, intitulado“Saúde mental de trabalhadores da saúde” buscou- se caracterizar o perfil dos trabalhadores, suas condições de trabalho e estabelecer a relação entre organização laboral, adoecimento mental e afastamentos, articulando os achados empíricos com a produção teórica crítica sobre saúde mental, trabalho e políticas públicas (SindiSaúde, 2025).

O cenário revelado pela pesquisa é de um adoecimento profundamente vinculado à organização do trabalho. Mais da metade dos respondentes já se afastou por motivos de saúde mental, muitos por períodos prolongados. Quase a totalidade reconhece que o adoecimento esteve total ou parcialmente relacionado ao trabalho.

Quem adoece não são profissionais inexperientes. Trata-se majoritariamente de mulheres adultas, com longa trajetória no serviço público, inseridas sobretudo em ambientes hospitalares. São trabalhadoras que sustentam o funcionamento cotidiano do SUS, mas que enfrentam jornadas extensas, múltiplos vínculos, horas extras frequentes e equipes cronicamente subdimensionadas.

A pesquisa evidencia ainda, um ambiente institucional adoecedor onde mais de 80% relatam falta permanente de profissionais; a maioria considera inadequadas as pausas e os períodos de descanso; o assédio moral, especialmente por chefias, aparece como prática recorrente; e a ausência de programas institucionais de cuidado à saúde mental é a regra, não a exceção. O medo de retaliação silencia o sofrimento e impede que trabalhadores busquem apoio ou afastamento no momento necessário.
Essa configuração laboral estabelece um nexo causal consistente com os afastamentos por saúde mental identificados no estudo. O fato de 56,7% dos trabalhadores já terem sido afastados por transtornos mentais e de 99,4% reconhecerem relação total ou parcial entre o adoecimento e o trabalho evidencia que o sofrimento psíquico não decorre de fragilidades individuais, mas de condições objetivas de trabalho. Pesquisas recentes corroboram esse achado ao demonstrar que o Burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade entre trabalhadores da saúde estão fortemente associados à sobrecarga, ao subdimensionamento das equipes e à intensificação das jornadas (WHO, 2022; Lima et al., 2023; Fernandes; Ribeiro, 2024).

Os impactos desse processo extrapolam o campo do trabalho. Afastamentos prolongados elevam gastos previdenciários, exigem contratações emergenciais e sobrecarregam ainda mais as equipes remanescentes. A perda temporária ou definitiva de profissionais experientes compromete a continuidade do cuidado, aumenta riscos assistenciais e fragiliza a resposta do sistema às necessidades da população.
Tratar o adoecimento mental como fragilidade individual é uma forma de desresponsabilizar o Estado e naturalizar a violência institucional. O sofrimento psíquico que atravessa o trabalho em saúde é produto direto de um modelo de gestão que combina intensificação, precarização e controle, sem oferecer proteção adequada a quem cuida.

Diante desse cenário, o Parlamento não pode se omitir. É urgente enfrentar a saúde mental dos trabalhadores da saúde como tema central da agenda pública. Isso implica fortalecer instituições como o COFEN e CORENs para a garantia de dimensionamento adequado de pessoal, regular jornadas, enfrentar o assédio moral, instituir programas permanentes de cuidado psicossocial e assegurar proteção contra retaliações.

A proposta legislativa a ser apresentada pela Deputada Ana Paula Lima contemplará medidas estruturantes para o enfrentamento desse grave problema, a regulação das jornadas de trabalho com previsão de pausas e períodos adequados de descanso, mecanismos de prevenção e enfrentamento ao assédio moral, a criação obrigatória de programas institucionais de cuidado à saúde mental dos trabalhadores, a proteção contra retaliações aos profissionais que buscarem apoio ou afastamento por motivos de saúde mental, o reconhecimento do nexo causal entre trabalho e adoecimento psíquico, e o fortalecimento do controle social com participação efetiva dos trabalhadores na formulação e avaliação dessas políticas.

Defender a saúde mental de quem trabalha na saúde é defender o direito à saúde de toda a população brasileira. Sem trabalhadoras e trabalhadores protegidos, não há SUS possível, não há saúde de qualidade. O adoecimento que hoje atinge os profissionais da saúde é um alerta político que exige resposta imediata e estruturante do Parlamento Nacional.

Referências
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais – dados por Unidade da Federação. Brasília: MPS, 2024.
Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br Acesso em: 27 dez. 2025.
FERNANDES, Maria Alice; RIBEIRO, Renata Silva. Organização do trabalho e sofrimento psíquico em profissionais da saúde: revisão integrativa. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 48, n. 140, p. 203–218, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sdeb/ Acesso em: 27 dez. 2025.
LIMA, Fernanda Carneiro et al. Burnout e fatores psicossociais em trabalhadores da saúde no contexto pós-pandemia. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 57, 34, 2023.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/ Acesso em: 27 dez. 2025.
SINDICATO DOS TRABALHADORES EM SAÚDE E PREVIDÊNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO ESTADUAL DE SANTA CATARINA (SindSaúde/SC). Pesquisa Saúde mental de trabalhadores da saúde. Santa Catarina, 2024.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Mental health at work. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/mental-health-at-work Acesso em: 27 dez. 2025.

ANA PAULA LIMA é enfermeira e deputada federal pelo PT de Santa Catarina.
Foto (divulgação Câmara dos Deputados)

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