O excesso de trabalho, afirma a deputada Juliana Cardoso neste artigo, adoece trabalhadoras e trabalhadores e expõe uma crise de saúde mental no país
“O debate sobre o fim da escala 6×1 não é apenas uma discussão trabalhista. É uma discussão sobre vida, dignidade e saúde pública. Por trás dessa escala exaustiva, em que trabalhadores passam seis dias trabalhando para descansar apenas um, existe uma realidade invisível: milhões de brasileiras e brasileiros vivendo sob cansaço permanente, ansiedade e esgotamento emocional.
Para muitas famílias, especialmente nas periferias das grandes cidades, a escala 6×1 significa abrir mão de algo essencial: tempo para viver. Significa mães que saem de casa antes dos filhos acordarem e voltam quando eles já estão dormindo. Significa país que não conseguem acompanhar a lição de casa, ir à reunião da escola ou simplesmente sentar à mesa para um almoço de domingo.
Estamos falando de um modelo de trabalho que rouba o tempo da vida. E o resultado desse modelo já aparece nas estatísticas.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por síndrome de burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024, passando de 823 para 4.880 casos registrados. Apenas no primeiro semestre de 2025 já haviam sido contabilizados 3.494 afastamentos por esgotamento profissional, quase o mesmo número de todo o ano anterior.
Quando olhamos para o conjunto dos transtornos mentais ligados ao trabalho – como ansiedade e depressão – o cenário é ainda mais preocupante. O Brasil registrou quase meio milhão de afastamentos do trabalho por problemas de saúde mental em 2024, um recorde histórico no país.
Entre 2023 e 2025, o número de trabalhadores afastados por transtornos mentais cresceu cerca de 79%, segundo dados do INSS e da Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Esses números revelam algo que os trabalhadores já sabem há muito tempo: o modelo atual de trabalho está adoecendo as pessoas.
E quem sente isso de forma ainda mais dura são as mulheres.
As mães trabalhadoras carregam uma jornada dupla – ou muitas vezes tripla. Trabalham fora, cuidam da casa, acompanham filhos, administram a vida familiar. Para elas, a escala 6×1 não significa apenas mais horas de trabalho. Significa menos tempo para cuidar de si mesmas e de quem amam.
É por isso que o fim da escala 6×1 também é uma pauta feminista. Porque quando ampliamos o direito ao descanso, ampliamos também o direito das mulheres a uma vida mais digna. Não é coincidência que países que avançaram em produtividade e qualidade de vida estejam discutindo redução de jornada e novas formas de organização do trabalho. Brasil precisa entrar nesse debate com coragem.
A aprovação do fim da escala 6×1, sem redução salarial, será um passo necessário para construir um país que valorize o trabalho sem sacrificar a saúde e a vida das pessoas. Não se trata de trabalhar menos. Trata-se de trabalhar melhor e viver melhor.
Um país que normaliza trabalhadores adoecendo, vivendo em exaustão permanente e sem tempo para suas famílias não está apenas cometendo uma injustiça social. Está produzindo uma crise silenciosa de saúde pública. O trabalho deve ser fonte de dignidade, não de adoecimento. Por isso, defender o fim da escala 6×1 é defender algo muito simples – e muito poderoso: o direito de viver além do trabalho.
(*) Juliana Cardoso é Deputada federal pelo PT de São Paulo.
Foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara










