MENU

Ataque de aliado de Flávio Bolsonaro a voto feminino reforça misoginia da extrema direita

Empresário bolsonarista afirma que “mulheres votam mal”; parlamentares e lideranças feministas reagem contra retrocesso de direitos

Um dos principais porta-vozes do bolsonarismo no exterior e aliado de primeira hora da família Bolsonaro, o influenciador e empresário Paulo Figueiredo expôs, mais uma vez, a face misógina da extrema direita, afirmando que “mulher vota muito mal”. Em transmissão nas redes sociais, ele sustentou que mulheres, com destaque para as solteiras, seriam incapazes de fazer boas escolhas políticas. Em seguida, dobrou a aposta: “Deixa eu me retratar: Mulher não vota muito mal, mulher vota mal para cxxxxxx”, escreveu em publicação nas redes sociais.

Na declaração, permeada pela violência verbal, Figueiredo chegou a dizer que as mulheres que o criticam poderiam “arrancar os pentelhos das calcinhas”. Ele ainda disse que as mulheres estão enganadas pelo que chamou de “ideologia demoníaca feminista”, que estaria destruindo a vida delas.

As declarações de Figueiredo provocaram reações indignadas de dirigentes do PT, que enfatizaram os direitos das mulheres e as conquistas históricas, que não podem retroceder.

“Esse movimento e essa fala expressam que a opinião da mulher não tem valor, que a opinião da mulher só vale quando ela está submetida à opinião de um homem. Por isso que enfrentar ideologicamente, enfrentar esses valores que acham que as mulheres só têm valor quando estão submissas é tão importante nos dias de hoje. Garantir o direito ao voto, direito à autonomia, direito a trabalhos justos, a salários iguais”, afirmou Camila Moreno, secretária Nacional Adjunta de Comunicação do PT. Para ela, a fala de Figueiredo se conecta com o movimento da extrema direita em todo o mundo.

A secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, afirma que o discurso do bolsonarista retrata o caráter profundamente machista e misógino da extrema direita. Ela ainda diz que a ofensiva demonstra uma reação ao espaço que as mulheres passaram a ocupar na democracia, exercendo sua autonomia.

“As mulheres conseguem perceber as mentiras do próprio Flávio Bolsonaro, justamente porque as mulheres têm mais preocupação e consciência de que ele mente. Nessa fala, ele [Figueiredo] ataca inclusive as mulheres de direita, desqualifica todas as mulheres, numa atitude misógina, machista”, afirma.

Como já havia salientado a coordenadora da Bancada Feminina na Câmara, deputada Jack Rocha (PT-ES), em entrevista à Rede PT de Comunicação, “a extrema direita fala mal das mulheres, mas quer os votos delas“. A parlamentar pontuou que a extrema direita sempre teve posições contrárias aos direitos das mulheres.

A deputada federal Ana Pimentel (PT-MG), que participa do o Grupo de Trabalho (GT) para discutir projetos relacionados à misoginia, defende que combater o ódio contra as mulheres é defender a democracia.

“A mensagem que eles querem passar para o país é que as mulheres não podem ocupar os espaços públicos, que as mulheres devem ser submetidas a práticas de silenciamento todos os dias, que as mulheres devem ser contidas em determinados espaços da sociedade. Por isso que o tema do enfrentamento à misoginia é um tema do debate da defesa da democracia, porque a direita radical desse país não suporta, eles odeiam as mulheres. É uma aberração a gente viver num país em que se possa fazer um debate público de ódio às mulheres e não ter responsabilização”, denunciou a parlamentar.

Misoginia como projeto político
Para a socióloga Ana Paula Portella, pesquisadora das relações de gênero, a declaração de Paulo Figueiredo parte de uma estratégia política da extrema direita de naturalizar a misoginia como forma de controle sobre a vida das mulheres.

“É uma fala obviamente manipuladora e, ao mesmo tempo, um lugar comum da direita. Antes eles diziam que mulher votava mal porque votava na esquerda. Agora eles acrescentaram que a mulher de direita também vota mal porque é mulher e vota em mulher”, analisa, em entrevista à Rede PT de Comunicação.

A pesquisadora explica que, embora a extrema direita aceite a presença de mulheres na política, esse espaço é condicionado à submissão a um projeto conservador e patriarcal.

“A extrema direita admite que as mulheres entrem na política. Mas essas mulheres serão autorizadas e legitimadas a atuar politicamente desde que fortaleçam a igreja, o dízimo e o poder de um determinado clã. Se, no exercício da sua função política, deixarem de cumprir o papel de mãe, de esposa ou deixarem de obedecer ao chefe político em nome de um projeto autônomo, certamente sofrerão sanções”, afirma.

Agenda de exclusão
Longe de ser uma manifestação isolada, o discurso de Paulo Figueiredo dialoga com uma agenda que vem ganhando força entre setores da extrema direita internacional, especialmente nos Estados Unidos. Próximo da família Bolsonaro e de lideranças do trumpismo, o influenciador reproduz uma narrativa difundida por grupos ultraconservadores que passaram a questionar abertamente a participação política das mulheres e a defender o resgate de papéis tradicionais de gênero.

Nas redes sociais e em espaços ligados a esse movimento, multiplicam-se discursos que associam o voto feminino ao “declínio” dos valores conservadores e chegam a defender restrições ao direito de voto das mulheres.

Neto de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, Paulo Figueiredo vive atualmente nos Estados Unidos e se consolidou como um dos principais articuladores internacionais do bolsonarismo, mantendo estreita proximidade com a família Bolsonaro e com setores da extrema direita norte-americana ligados ao presidente Donald Trump.

Ataques à igualdade
Além de afirmar que mulheres não sabem votar, Paulo Figueiredo atacou o feminismo, atribuindo à luta por igualdade de direitos a responsabilidade pelo comportamento eleitoral das mulheres. Para pesquisadoras e movimentos feministas, esse tipo de discurso busca desqualificar a autonomia feminina e reforçar papéis tradicionais de submissão.

Ao longo da história, mulheres precisaram enfrentar décadas de mobilização para conquistar o direito ao voto e à participação política. No Brasil, o sufrágio feminino foi reconhecido em 1932 após intensa luta dos movimentos de mulheres. Hoje, declarações que questionam a capacidade das mulheres de exercer esse direito representam um retrocesso incompatível com os princípios democráticos e reforçam uma agenda que insiste em limitar a cidadania feminina.

Da Rede PT de Comunicação

 

BUSCA RÁPIDA