Localizada no bairro Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre, a Casa das Mulheres do Hip Hop e LGBTQIAP+ constitui uma experiência territorial de grande potência social, cultural, política e comunitária. Sua existência permite deslocar a compreensão tradicional das periferias como espaços exclusivamente destinatários de políticas públicas, reconhecendo-as também como territórios produtores de conhecimento, cultura, organização comunitária, tecnologias sociais, autonomia e formulação de respostas para os desafios contemporâneos.
Inserida no espaço geográfico do Cone Sul, a experiência estabelece conexões entre cultura, educação, esporte, direitos humanos, sustentabilidade, economia popular e solidária, geração de oportunidades e pertencimento. Ao fazê-lo, cria possibilidades de diálogo e intercâmbio com outros territórios periféricos e urbanos do Brasil, da América Latina e do Mercosul.
Mulheres produzindo gestão, conhecimento e transformação
Por trás da idealização e da gestão desse espaço está B-Girl Ceia (Claudisseia Santos), cuja trajetória articula a experiência concreta das ruas e das batalhas de breaking com o conhecimento dos processos institucionais e da gestão pública construído entre Porto Alegre e Brasília.
Sob o lema “Quando uma sobe, puxa a outra”, Ceia estrutura uma experiência de gestão comprometida com a ampliação da participação de sujeitos historicamente marginalizados nos espaços de decisão, formação, trabalho e geração de renda.
A equipe é majoritariamente composta por mulheres negras, lésbicas, bissexuais e pessoas trans, constituindo uma experiência concreta de produção de oportunidades, reconhecimento, pertencimento e autonomia.
Integram ainda a equipe de apoio Fernanda Santos e Arthur Silveira, na coordenação e supervisão; Natalia Lara, no administrativo; o Studio Criativo ILAH², na comunicação e mídias; e Uiliam Reis, na zeladoria e manutenção.
Hip Hop como arquitetura de formação territorial
A atuação da Casa transforma o cotidiano local ao integrar a formação cultural nos cinco elementos do Hip Hop aos desafios contemporâneos vivenciados pela periferia.
As oficinas são desenvolvidas por uma equipe de educadoras e educadores vinculados às diferentes dimensões do Hip Hop:
– MC — Lyrical & Rima: MC Negra Daya;
– Graffiti — Artes Visuais: Sandy Kyoko;
– DJ — Discotecagem & Ritmo: DJ Luizza Graciano da Silva;
– Breaking — Dança & Esporte: Breaking Jess Vegano;
– Conhecimento — 5º Elemento: Lariss Ignácio de Matos.
Essa arquitetura formativa compreende o Hip Hop não apenas como expressão artística, mas como linguagem cultural, prática educativa, produção de conhecimento, organização comunitária e instrumento de participação social.
A experiência dialoga, nesse sentido, com o Decreto nº 11.784/2023, que institui a Política Nacional de Hip Hop e reconhece a relevância de seus elementos e de ações voltadas à promoção da cidadania, da inclusão, do protagonismo, do empreendedorismo e da geração de oportunidades.
Esporte, saúde e cidadania
Além das linguagens artísticas, a Casa promove práticas relacionadas aos esportes urbanos e radicais, incluindo breaking, skate e street workout.
Essas atividades articulam corpo, movimento, saúde, expressão, convivência comunitária e cidadania, criando possibilidades de ocupação positiva do território e de desenvolvimento de capacidades individuais e coletivas.
O esporte, nesse contexto, não aparece isoladamente. Integra uma arquitetura territorial mais ampla na qual cultura, educação, saúde, lazer e pertencimento se encontram.
Justiça climática, ecologia urbana e sustentabilidade
Na dimensão ambiental, a experiência incorpora a perspectiva da justiça climática e da sustentabilidade, trabalhando com a ecologia urbana e com processos de conscientização comunitária.
Essa dimensão possui especial relevância diante da intensificação das crises ambientais e climáticas que atingem de maneira desigual diferentes territórios e populações.
Ao produzir conhecimento e mobilização ambiental a partir da periferia, a Casa contribui para romper com a ideia de que soluções ambientais necessariamente precisam ser produzidas pelos centros institucionais e posteriormente transferidas aos territórios.
A experiência demonstra justamente o contrário: a periferia também produz conhecimento, respostas, metodologias e soluções diante das crises contemporâneas.
Economia Popular e Solidária, trabalho e autonomia
No campo econômico, a articulação com a Economia Popular e Solidária amplia a capacidade de transformar a produção cultural e artística em instrumentos de trabalho, renda e autonomia.
Essa dimensão fortalece especialmente mulheres, juventudes e pessoas LGBTQIAP+, criando possibilidades de circulação econômica, reconhecimento profissional e sustentabilidade das iniciativas produzidas no próprio território.
A cultura deixa, assim, de ser compreendida exclusivamente como atividade de fruição e passa a ser reconhecida também como campo de trabalho, produção econômica, formação profissional e construção de autonomia.
A Casa como infraestrutura social e tecnologia social
Conceitualmente, a experiência pode ser compreendida a partir de uma arquitetura integrada:
Casa → infraestrutura social → tecnologia social → produção de conhecimento → autonomia → transformação territorial → circulação de experiências → conexão latino-americana e Mercosul.
Nessa perspectiva, a Casa não é apenas um equipamento físico. Ela constitui uma infraestrutura político-cultural, educacional, econômica e comunitária produzida a partir da periferia, capaz de reunir diferentes dimensões da vida social e transformá-las em processos de organização, formação e criação de oportunidades.
O Hip Hop, por sua vez, revela sua dimensão ampliada: é arte, cultura, educação, esporte, comunicação, conhecimento, organização social, economia e possibilidade concreta de transformação territorial.
A Restinga como sujeito produtor de conhecimento
É nesse sentido que a Restinga pode ser compreendida como território produtor de conhecimento e de tecnologias sociais.
A Restinga não é apenas o cenário onde a experiência acontece.
A Restinga é sujeito. A Restinga é método. A Restinga é fonte de conhecimento. A Restinga é território de produção de tecnologia social. A Restinga é lugar de produção cultural, autonomia e capacidade política.
Essa inversão epistemológica é fundamental. Em vez de pensar o conhecimento como algo produzido exclusivamente nos centros acadêmicos, governamentais ou institucionais para posteriormente ser levado às periferias, a experiência demonstra a possibilidade de uma outra trajetória: o conhecimento nasce no território, é produzido coletivamente, experimentado na prática, sistematizado e pode circular para outros territórios.
Da Restinga ao Cone Sul
Quando esse conhecimento encontra redes, intercâmbios e outros territórios, abre-se uma possibilidade concreta de circulação de experiências entre periferias brasileiras, latino-americanas e do Cone Sul.
A Casa passa, então, a constituir uma ponte entre território e mundo.
Uma ponte na qual o conhecimento não precisa partir exclusivamente dos centros em direção às periferias. Ele também pode nascer na periferia, circular a partir dela, encontrar outros territórios e chegar ao mundo.
Essa é uma das dimensões mais potentes da experiência: não apenas transformar a Restinga, mas demonstrar que a transformação produzida na Restinga pode produzir conhecimento capaz de dialogar com outros territórios, com a América Latina, com o Cone Sul e com o Mercosul.
Nesse movimento, o Hip Hop torna-se também uma plataforma de intercâmbio territorial e cultural, articulando experiências, metodologias e tecnologias sociais produzidas pelas próprias comunidades.
Uma experiência territorial com potencial de circulação internacional
Somar a essa rede significa fortalecer uma concepção de desenvolvimento territorial baseada em cultura, educação, esporte, direitos humanos, economia popular e solidária, justiça climática, sustentabilidade, autonomia e pertencimento.
Significa reconhecer que os territórios periféricos não são apenas lugares onde políticas públicas devem chegar.
São também lugares onde políticas, metodologias, tecnologias sociais e conhecimentos podem nascer.
A experiência da Casa das Mulheres do Hip Hop e LGBTQIAP+ de Porto Alegre apresenta, portanto, uma possibilidade concreta de pensar o Hip Hop como ecossistema territorial de transformação social, no qual diferentes dimensões da vida comunitária se conectam para produzir autonomia, pertencimento, trabalho, conhecimento e capacidade política.
Da Restinga ao Mercosul, o movimento é de circulação. Do território para a rede. Da rede para outros territórios. Dos territórios para o mundo.
E, nesse percurso, a periferia deixa de ser compreendida apenas como lugar de chegada das políticas e passa a ser reconhecida como lugar de origem de conhecimentos, tecnologias sociais e soluções para o presente e para o futuro.
Informações de contato e redes sociais
Instagram:
@casadasmulhereshiphoprs
@CaisDaQuebrada
@govjus
@ifalvorada
WhatsApp / Atendimento:
(51) 98513-6631
Eloá Kátia Coelho é Pesquisadora Científica Sênior, Articuladora Política Internacional e também multimídia, coordenadora do Studio Criativo do ILAH2
Daniel Mendes é pesquisador, Designer Gráfico e multimídia, coordenador do Studio Criativo do ILAH2
Lessa Reis é Pesquisadora Social e Articuladora política.
B-Girl Ceia é idealizadora das Casas das Mulheres do Hip Hop no Brasil e gestora da Casa das Mulheres do Hip Hop e LGBTQIAP+ da Restinga, em Porto Alegre, também conhecida como Pavilhão.










